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Vida: essa estranha reciprocidade
Por Luciano Fialkowski
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"Arcaram os vossos argonautas com monstros e medos.
Também na viagem do meu pensamento tive monstros
e medos com que arcar. No caminho
para o abismo abstrato que está no fundo das coisas,
há horrores que passar, que os homens
do mundo não imaginam, e medos que ter, que
a experiência humana não conhece. É
mais
humano talvez o cabo para o lugar indefinido
do mar do que a senda abstrata para o vácuo
do mundo. Cheguei por fim também ao
extremo vazio das coisas, à borda
imponderável do limite dos entes, à porta
sem lugar do abismo abstrato do Mundo".
(Do Livro do Desassossego - F. Pessoa)
Si
ud. quiere leer el intercambio que Espacio Potencial mantuvo
con el autor de este artículo haga click aqui.
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Perdemos a metade do material genético na concepção,
no encontro entre esperma e óvulo, para que ambos partilhem
de uma estranha reciprocidade entre universos. Nenhum deles
terá mais seu todo de origem. Viverão sob a
condição de que cedam metade de si para a morte,
para que a outra metade do outro venha a se juntar e assim
temos a primeira célula. Aí já morremos
pela metade, ao ter que deixar com o outro a metade dos caracteres,
para juntos vivermos abraçados com a metade do que
nos caracteriza. A vida, agora pela metade, se nutre da multiplicação
apenas metade de sua toda possibilidade inicial. Para viver,
perdemos nossa chance de sermos todo. Os caracteres que se
perderam na morte da metade - se o pai tinha cabelos pretos
e o filho nasce com cabelos loiros dos caracteres da mãe;
os olhos castanhos que se perderam da mãe, surgiram
os vivos azuis metade paternos -. E assim, as metades que
viverão são a metade de toda a verdade. A verdade
que fica da metade que morre é meia verdade no que
se perde. É verdade que o que vive tenta escapar para
dentro do tudo uterino e lá se emp(r)enha em ganhar
corpo - graças a essa forçangústia de
ser metade, que impulsiona a querer novamente ser tudo - na
busca de se completar cara-metade perdida, talvez..., quem
sabe..., um dia... Até que, não podendo mais
do que ser um corpo dessa metade, porque dentro de outro corpo,
novamente se rompe, morrendo para a metade que a iludiu até
poder vir à luz e, assim nascer de uma ilusão
de todo, para freqüentar o mundo, dividido entre corpo-realidade
e espírito-sonho. Ou seja, o Ser, ao nascer torna-se
metade que se separa. Conduzido por um colo, caminha na ilusão
de Ser um todo que caminha, até que aprende a caminhar
de verdade, para saber que não poderá caminhar
levando tudo, pois que, ao caminhar sozinho, faz morrer o
placentário outro que o carregou - e se desgarra. Apenas
o coração bate insistente e angustiado, num
sugar frenético junto ao peito, na ânsia de suprir
com volúpia a dor-vida de tanta perda, como ânsia
de nada perder, de no todo remergulhar. Coração
que se torna próprio, em ritmo e circunstância,
porém já dividido em dois tempos, carregando
entre ambos a falta de sua metade, um morrer constante entre
dois pulsares. Morrer, portanto, também será
morrer pela metade. A vida, ao separar-se da sua metade que
vai para o espaço, já será metade morte
- esta é sua sorte, fica o Ser escasso a procurar seu
complemento. A metade fim do que morrera metade-início,
é cara-metade que definhou, com outra metade que também
morreu, um ser dividido que morre sem ter sido, para permitir
a um outro meta-devir a vida. O todo, então, será
sempre sonho. Será sempre todo 'entreparentes'. Quer
dizer, como a lua na crescente, entreparênteses é
sempre a cumplicidade na ilusão de que há um
todo indivisível a se chegar: Venha lua cheia, me clareia
- é meia-noite, e meia...- amei-a assim mesmo, lua
que não veio... O que chamamos rebento, diz do ato
que toma metade para que se possa advir-a-Ser. E o mais é
a proibição de se juntar à metade de
quem se rebentou, na ilusão de que encontrá-la
seria tudo festa e gozo, um supremo e último êxtase
'entreparentes'. O vão criado pelo impossível
desse retorno torna-se desejo, que fica buscando o que jamais
encontrará, eis que entre o todo matriz e seu rebento,
surge - o-p'ai! No lugar, portanto, do re-encontro impossível
num todo, flui o desejo, o vazio, o Nada ou, como diz Fernando
Pessoa, o abismo abstrato do mundo. 'A-bismo', esse impossível
bis. Fica a esperança, essa metade que ali sobreviverá
como insistência. Filhos-soma dessa esperança,
somos essas metades que embarcam no vão da busca, em
busca da cara-metade nunc'havida. Depois... Bem, depois...
Durma-se com uma metade dessas!
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DIALOGO
con
el autor
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Querido
Luciano, en términos de Winnicott, hay en cada uno
de nosotros una mitad visible y realizada, y otra "potencial".
Personas como vos, que están atentas a los demás
y sensible a los misterios, le das a otros -como en este
caso, a los lectores de "La casa de Winnicott"-
la oportunidad de encontrarnos con esa "otra"
mitad de nosotros mismos, y de ver que también somos
lo que no imáginábamos ser... A veces para
bien, a veces no tanto. Gracias por tu amistad y por ayudar
a descubrirnos.
Quiero regalarte algo que me recordó tu bellísimo
texto (sobre las "mitades"), un poema de Leminski
(en Distraídos venceremos):
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Administério
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Quándo o mistério chegar,
já vai me encontrar dormido,
metade dando pro sábado,
outra metade, domingo.
Nao haja som nem silencio,
quando o mistério aumentar.
Silencio é coisa sem senso,
nao cesso de observar.
Mistério, algo que, penso,
mais tempo, menos lugar.
Quando o misterio voltar,
meu sono esteja tao solto,
nem haja susto no mundo
que possa me sustentar.
Meia-noite, livro aberto.
Mariposas e mosquitos
pousam no texto incerto.
Seria o branco da folhia,
luz que parece objeto?
Quem sabe o cheiro do preto,
que cai ali como un resto?
Ou seria que os insetos
descobriram parentesco
com as letras do alfabeto?
Daniel
Ripesi
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Caríssimo
Daniel, me brindas com a "companhia de jogos"
que faz de Leminski um tabuleiro de novas seqüências
e con-seqüências. Fiquei pensando a partir do
que podemos dizer, de que somos, cada um, não mais
que um ponto do real. E que, graças à linguagem,
nos transformamos em múltiplas facetas, graças
aos outros, a partir dos quais nos reconhecemos diferentes,
ao mesmo tempo que nos reduzimos a esse ponto para ali constituir
lugar de jogo real, entre os demais que são os múltiplos
pontos, com os quais nos contectamos. Posso pensar que,
desde a posição que tomo, enquanto ponto,
é possível modificar a textura, consistência,
forma, desse real, que tem a ver com a condição
humana, no sentido de resistir a ser apenas um ponto no
real. Agora vemos que uma célula-tronco pode se transformar
em qualquer órgão, graças ao jogo que
estabelece com uma proximidade que conduz seu destino a
se constituir parte desse órgão. Brincamos
com a realidade através das metáforas. Lacan
(Seminário III) citando Clèrambault, diferencia
o anideico (não conforme a uma seqüência
de idéias) do idéico (equivalência entre
pensamento e pensado), para diferenciar a psicanálise
(anideico) de outras formas de discurso que propõem
antecipar o que virá pelo jogo estatístico,
quer dizer, o teor nihilista que reduz o singular ao número.
O estatístico chega ao ponto, reduzindo todo o trabalho
feito pelo sujeito de constituir e constituir-se diferença.
Ainda em Lacan, vamos encontrar uma interpretação
que faz de Wittgestein, de que a ciência é
uma tautologia, no sentido de que reduz tudo à igualdade,
x "=" 2. Em psicanálise, assim como na
poesia, estamos a fazer o jogo da "disjunção".
Conjugamos no ponto da disjunção, como quem
resiste à redução numérica com
a 'distração', conforme convoca o poema de
Leminski. É o que dizemos sobre os inquietos, quando
não reduzidos à medicalização.
Pelo que disseste, deixo de ser ponto para jogar minha sorte
quanto a 'quê soy?' com os outros - que horrível!
e encantadora que é a liberdade, não? - assim
como a de poder ousar fazer jogadas freudianas (entendo
isso a partir da diferença que encontrei num texto
de "Invierno", entre 'play' e 'game', que faz
Winnicott). Tu, e vocês de 'Espaciopotencial' me atualizam
'nessa lúdico de deslocar-se no real pelo simbólico'.
A propósito, lendo o interessante texto de Alicia
Galfasó, nada indica que ela deixa de ser psicanalista
quando se vale de elementos encontrados no caminho de sua
busca, em outras fontes, para operar em situações
específicas, aparentemente mais imediatas, portanto
não psicanalíticas. Como respondeu Picasso
a uma cliente que adquiriu um desenho seu, onde de pronto
fez apenas um traço e entregou a ela. Quando essa
cliente tem que pagar, pergunta a ele por que custa tanto,
se é só um rabisco. Ao que Picasso responde,
mais ou menos assim: "Porém, para chegar a esse
traço, foi toda minha vida!". Às vezes,
para ser psicanalista, quer dizer, para produzirmos um ato
psicanalítico, poderíamos dizer que freqüentamos
até o absurdo, não? - ainda que Nietzche disse
que "não há absurdo". É desta
forma também que continuo a ler os outros textos
de "Verão".
.......Talvez porque somos seres de despedida criamos as
férias, para podermos nos distrair mais.
A você e a Paula, um mui atento abraço.
Luciano
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