Na mão do leitor, minha segunda coletânea de
poemas. Enquanto lê, vou me recuperando do susto de
tê-los escrito. E nessa ponte, alguma emoção
de surpresa ainda pode se entre-faiscar. Passagens que pude
registrar, como quem (re)colhe a percepção
de uma viagem. Na tentativa de encontrar, pela linguagem,
num tempo em que tudo se oferece pronto, ou cientificamente
antecipado, previsível, alguma fronteira que seja
humana paragem. Seu interior capital como seu capital interior.
O lugar Aqui como o mais distante a se percorrer. Assim,
uma viagem acontece em cada ser. Poder perder-se no arrebatamento
e, ainda assim registrá-lo como emoção.
Para uma transmissão aos seus do que o assalta, mas
que, na maioria das vezes, a distração do
consumo e do excesso deterioram as vias desse registro,
se tornando miseravelmente perda real! A poesia, então,
como lâmina no interstício, vai comparecer
para diagrafar o que ocorre na borda; no vazio onde o humano,
então, se regenera como tal. E pode contemplar e
suportar o novo sem o risco de fixar-se na acumulação
e no já percorrido como (falsa) garantia. Poder contemplar-se
angustiado, sem falsos aplacamentos, sem idolatrias, para
encontrar novos caminhos, depois de contemporâneas
quedas. Nem só sujeito, nem só objeto. Dentro
e fora articulados, como o trem e a neblina; vento e vela.
Entre o corpo e o sopro, o poema. Eis o que registro como
páginas (d)e uma viagem. LF
MARCENEIRO
DE ARAMAR
Enquanto
polia a silenciosa e móvel cristaleira
Gastando a lixa gastando as mãos a madeira
Gastando e lixando o tempo
O tempo que engrossa a pele e empoeira.
A alma pulsa como aflita criança na espera
De lá dos olhos a hora de ver pronta e lustrada
E já seca do suor a cristaleira
E ainda fresca poeira sopra-la última
E
o quarto móvel das crianças
Polindo-as moldando-lhes as almas
De jovens que serão logo adiante,
Pensa o marceneiro que cola será capaz
De juntar essas infâncias com a juventude volátil?
Enquanto dormir-em adultos surgirão articulados móveis
Polidas almas bólidos de sonhos à vida lançados
Tarefa
pronta missão cumprida janela aberta
Eu saio - marejados olhos de marceneiro empoeirado
Banhar-me vou em águas do mar-celeiro das palavras
náufragas
E polir tábuas brutas palavras: cort-alas mold-alas
ared-ond-alas
Quais finos móveis de ante-sala envolv-elas em talas
e dá-lias as flores
Lançá-las poeira de cores, estonteá-las
revoá-las esvoaçá-las
Escoá-las ao soprá-las em verbais pensamentos
Ouvidos
todos!
Como receber cada criança que nasce
De móveis berços abertos escutá-las
Cimbalentes notas o vento...
Nota-se que vento sente
Ao bater móvel nas quinas rente e entornar em hélice:
Em redondilhas levanta-se em escamas plumejantes
Em escanteio procuras furos passagens frestas
Tocas em cordas tênues varreduras...
Como
o arqueiro ao fim da jornada
Depositá-las em alforjes ferramentas
... A caneta descansa debruçada
Espreguiçada na página aberta
Sobre a oculta tábua vesmadeira
Agora escrivaninha e seu leal escriba.
Tábua que como a antes muda cristaleira
Um dia criou alma
Luciano Fialkowski 20/09/2001