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Marceneiro de Aramar
por Luciano Fialkowski

TEXTO DO CONVITE DE LANÇAMENTO
de Viagem dos homens -entre vento e vela-


Na mão do leitor, minha segunda coletânea de poemas. Enquanto lê, vou me recuperando do susto de tê-los escrito. E nessa ponte, alguma emoção de surpresa ainda pode se entre-faiscar. Passagens que pude registrar, como quem (re)colhe a percepção de uma viagem. Na tentativa de encontrar, pela linguagem, num tempo em que tudo se oferece pronto, ou cientificamente antecipado, previsível, alguma fronteira que seja humana paragem. Seu interior capital como seu capital interior. O lugar Aqui como o mais distante a se percorrer. Assim, uma viagem acontece em cada ser. Poder perder-se no arrebatamento e, ainda assim registrá-lo como emoção. Para uma transmissão aos seus do que o assalta, mas que, na maioria das vezes, a distração do consumo e do excesso deterioram as vias desse registro, se tornando miseravelmente perda real! A poesia, então, como lâmina no interstício, vai comparecer para diagrafar o que ocorre na borda; no vazio onde o humano, então, se regenera como tal. E pode contemplar e suportar o novo sem o risco de fixar-se na acumulação e no já percorrido como (falsa) garantia. Poder contemplar-se angustiado, sem falsos aplacamentos, sem idolatrias, para encontrar novos caminhos, depois de contemporâneas quedas. Nem só sujeito, nem só objeto. Dentro e fora articulados, como o trem e a neblina; vento e vela. Entre o corpo e o sopro, o poema. Eis o que registro como páginas (d)e uma viagem. LF

MARCENEIRO DE ARAMAR

Enquanto polia a silenciosa e móvel cristaleira
Gastando a lixa gastando as mãos a madeira
Gastando e lixando o tempo
O tempo que engrossa a pele e empoeira.
A alma pulsa como aflita criança na espera
De lá dos olhos a hora de ver pronta e lustrada
E já seca do suor a cristaleira
E ainda fresca poeira sopra-la última

E o quarto móvel das crianças
Polindo-as moldando-lhes as almas
De jovens que serão logo adiante,
Pensa o marceneiro que cola será capaz
De juntar essas infâncias com a juventude volátil?
Enquanto dormir-em adultos surgirão articulados móveis
Polidas almas bólidos de sonhos à vida lançados

Tarefa pronta missão cumprida janela aberta
Eu saio - marejados olhos de marceneiro empoeirado
Banhar-me vou em águas do mar-celeiro das palavras náufragas
E polir tábuas brutas palavras: cort-alas mold-alas ared-ond-alas
Quais finos móveis de ante-sala envolv-elas em talas e dá-lias as flores
Lançá-las poeira de cores, estonteá-las revoá-las esvoaçá-las
Escoá-las ao soprá-las em verbais pensamentos

Ouvidos todos!
Como receber cada criança que nasce
De móveis berços abertos escutá-las
Cimbalentes notas o vento...
Nota-se que vento sente
Ao bater móvel nas quinas rente e entornar em hélice:
Em redondilhas levanta-se em escamas plumejantes
Em escanteio procuras furos passagens frestas
Tocas em cordas tênues varreduras...

Como o arqueiro ao fim da jornada
Depositá-las em alforjes ferramentas
... A caneta descansa debruçada
Espreguiçada na página aberta
Sobre a oculta tábua vesmadeira
Agora escrivaninha e seu leal escriba.
Tábua que como a antes muda cristaleira
Um dia criou alma

Luciano Fialkowski 20/09/2001


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