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Ofrecemos a continuación el intercambio epistolar
entre dos de las figuras más emblemáticas
de la poesía brasileña, Chico Buarque y Vinicius
de Moraes. Vinicius propone a Chico el cambio de algunas
expresiones en la letra del poema-canción "Valsinha"
(Letra de Chico, con música, en este caso, de Vinicius).
Chico, entonces, contesta punto por punto cada una de las
sugerencias hechas por Vinicius desestimándolas casi
todas y sosteniendo la pertinencia de las suyas.
Pertinencia basada en el rigor de la lógica y en
la necesidad de ofrecer destellos de una verdad espontánea
como debe intentarlo la poesía. Dos personajes para
quienes las palabras poseen la dignidad de lo sagrado y
se muestran respetuosos de sus poderes, reflexionan sobre
el encuentro de la palabra más justa, la que mejor
hace justicia a la experiencia que intentan nombrar.
Chico tiene sus razones y las expone con un respeto sin
solemnidades frente al maestro Vinicius... Invitamos a nuestros
lectores, entonces, a tomar contacto con quienes tienen
por oficio forjar palabras necesarias.
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Cartas
expostas na Biblioteca Nacional pela comemoração
dos 60 anos de Chico Buarque
enviado
por Doña Flor
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DE VINÍCIUS DE MORAES PARA
CHICO BUARQUE
Mar del Plata, 24 de janeiro de 1971
Chiquérrimo,
Dei uma apertada linda na sua letra, depois que você
partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um
pouquinho sobre ela, sobre aqueles hiatos que havia, adicionando
duas ou três idéias que tive. Mandei-a em carta
a você, mas Toquinho, com a cara mais séria
do mundo, me disse que Sérgio [Buarque de Hollanda]
morava em Buri, 11, e lá se foi a carta para Buri,
11.
Mas, como você me disse no telefone que não
tinha recebido, estou mandando
outra para ver se você concorda com as modificações
feitas.
Claro que a letra é sua, e eu nada mais fiz que dar
uma aparafusada geral. Às vezes o
cara de fora vê melhor essas coisas. Enfim, porra,
aí vai ela. Dei-lhe o nome de "Valsa hippie",
porque parece-me que tua letra tem esse elemento hippie
que dá um encanto todo moderno à valsa, brasileira
e antigona. Que é que você acha? O pessoal
aqui, no princípio, estranhou um pouco, mas depois
se amarrou na idéia. Escreva logo, dizendo o que
você achou.
Um
dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre
chegar
Olhou-a dum jeito mais quente do que comumente costumava
olhar
E não falou mal da poesia como mania sua de falar
E nem deixou-a só num canto; pra seu grande espanto
disse:
vamos nos amar...
Aí ela se recordou do tempo em que saíam
para namorar
E pôs seu vestido dourado cheirando a guardado de
tanto
esperar
Depois os dois deram-se os braços como a gente
antiga
costumava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça
e começaram a
bailar...
E logo toda a vizinhança ao som daquela dança
foi e despertou
E veio para a praça escura, e muita gente jura
que se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como
não
se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz.
DE
CHICO BUARQUE PARA VINÍCIUS DE MORAES
Caro
poeta,
Recebi as duas cartas e fiquei meio embananado. É
que eu já estava cantando
aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando
a ela. Também
porque, como você já sabe, o público
tem recebido a valsinha com o maior
entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela é
o ponto alto do show, junto com o "Apesar de você".
Então dá um certo medo de mudar demais. Enfim,
a música é sua e a discussão continua
aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha opinião.
Estude o meu caso, exponha-o a Toquinho e Gesse, e se não
gostar foda-se, ou fodo-me eu.
"Valsa hippie" é um título forte.
É bonito, mas pode parecer forçação
de barra, com tudo que há de hippie por aí.
"Valsa hippie" ligado à filosofia hippie
como você a ligou, é um título perfeito.
Mas hippie, para o grande público, já deixou
de ser filosofia para ser a moda pra frente de se usar roupa
e cabelo. Aí já não tem nada a ver.
Pela mesma razão eu prefiro que o nosso personagem
xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar
mal da poesia. A sua solução é mais
bonita e completa, mas eu acho que ela diminui o efeito
do que se segue. Esse homem da primeira estrofe é
o anti-hippy. Acho mesmo que ele nunca soube o que é
poesia. É bancário e está com o saco
cheio e está sempre mandando sua mulher à
merda. Quer dizer, neste dia ele chegou diferente, não
maldisse (ou "xingou" mesmo) a vida tanto e convidou-a
pra rodar.
"Convidou-a pra rodar" eu gosto muito, poeta,
deixa ficar. Rodar que é dar um passeio e é
dançar. Depois eu acho que, se ele já for
convidando a coitada para amar, perde-se o
suspense do vestido no armário e a tesão da
trepada final. "Pra seu grande espanto", você
tem razão, é melhor que "para seu espanto".
Só que eu esqueci que ia por itens.
Vamos lá:
Apesar
do Orestes (vestido de dourado é lindo), eu gosto
muito do som do vestido decotado. É gostoso de cantar
vestidodecotado. E para ficar dourado, o vestido fica com
o acento tendendo para a primeira sílaba. Não
chega a ser um acento, mas é quase. Esse verso é,
aliás, o que mais agrada, em geral. E eu também
gosto do decotado ligado ao "ousar" que ela não
queria por causa do marido chato e quadrado. Escuta, ô
poeta, não leva a mal a minha impertinência,
mas você precisava estar aqui para ver como a
turma gosta, e o jeito dela gostar dessa valsa, assim à
primeira vista. É por isso que
estou puxando a sardinha mais para o lado da minha letra,
que é mais simplória, do que pelas suas modificações
que, enriquecendo os versos, talvez dificultem um pouco
a compreensão imediata. E essa valsinha tem um apelo
popular que nós não suspeitávamos.
Ainda
baseado no argumento acima, prefiro o "abraçar"
ao "bailar". Em suma, eu não mexeria na
segunda estrofe.
A
terceira é a que mais me preocupa. Você está
certo quanto ao "o mundo" em vez de "a gente".
Ah, voltando à estrofe anterior, gostei do último
versos onde você diz "e cheios de ternura e graça"
em vez de "e foram-se cheios de graça".
Agora, estou pensando em retomar uma idéia anterior,
quando eu pensava em colocá-los em estado de graça.
Aproveitando a sua ternura, poderíamos fazer "Em
estado de ternura e graça foram para a praça
e começaram a se abraçar". Só
tem o probleminha da junção "em-estado",
o
"em-e" numa sílaba só. Que é
o mesmo problema do "começaram-a". Mas
você mesmo disse que o probleminha desaparece dependendo
da maneira de se cantar. E eu tenho cantado "começaram
a se abraçar" sem maiores danos. Enfim, veja
aí o que você acha de tudo isso, desculpe a
encheção de saco e responda urgente.
Há
um outro problema: o pessoal do MPB-4 está querendo
gravar essa valsa na marra. Eu disse que depende de sua
autorização e eles estão aquí
esperando.
Eu também gostaria de gravar, se o senhor me permitisse,
por que deu bolo com o "Apesar de você",
tenho sido perturbado e o disco deixou de ser prensado.
Mas deu para tirar um sarro. É claro que não
vendeu tanto quanto a "Tonga", mas a "Banda"
vendeu mais que o disco do Toquinho solando "Primavera".
Dê um abraço na Gesse, um beijo no Toquinho
e peça à Silvana para mandar notícias
sobre shows etc. Vou escrever a letra como me parece melhor.
Veja aí e, se for o caso, enfie-a no ralo da banheira
ou noutro buraco que você tiver à mão.
Um
dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre
chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava
olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito
de sempre
falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto
convidou-
a pra rodar
Então
ela se fez bonita como há muito tempo não
queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto
esperar
Depois os dois deram-se os braços como há
muito tempo não se
usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça
e começaram a
se abraçar
E
ali dançaram tanta dança que a vizinhança
toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz.
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