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Festa Literária de Paraty por Doña Flor

Surpreendi-me quando li no jornal de todos os dias o anúncio do evento: "Festa Literária de Paraty" - achei interessante que o chamassem de "festa.


"Festa
[Do lat. tard. festa, do neutro pl. do lat. festum, i.] S.f.
1. Reunião alegre para fim de divertimento
2. O conjunto das cerimônias com que se celebra qualquer acontecimento; solenidade, comemoração.
(...)
5. Fig. Regozijo, alegria, júbilo."

Novo Aurélio - Dicionário da lingua portuguesa Aurelio Buarque de Hollanda

Surpreendi-me ao ler o anúncio: "Festa Literária de Paraty" - trataria-se apenas de mais um evento do mercado editorial em busca dos lucros exorbitantes dos bestsellers? Tardes de autógrafos apinhadas de filas com pais nervosos e filhos neuróticos (ou vice-versa)? Que celebração seria aquela?

Ao chegar em Paraty, pequena cidade colonial situada no extremo sul do estado do Rio de Janeiro, comecei a entender que não havia propaganda enganosa. Era a segunda vez que a visitava, mas algo estava diferente. Um ar de euforia, música, risos e sorrisos, olhares cúmplices, descontração, espontaneidade e total harmonia entre a alegre onda de visitantes e o traçado dos casarões coloridos e paralelepípedos das ruas de antigamente: uma festa.

Ao longo dos dias que passavam felizes , todos pareciam se reconhecer na mesma paixão: a Literatura. E, como qualquer apaixonado, tinham brilho no olhar, riam à toa, viravam criança, deslumbravam-se e festejavam, munidos dos seus livros debaixo do braço.

Nas tendas onde aconteciam conferências dos autores, nas prateleiras iluminadas por edições irresistíveis, na fila em busca de autógrafos, nos bancos das praças, calçadas, bares, restaurantes, sem limites de idade, horário marcado ou tempo ruim, era sempre o lugar e hora certos para celebrar: a vida, os encontros, aquele encontro e o prazer da leitura.

Tal como "belo", que já traz beleza em si mesmo. Ou "caos", que alvoroça o entendimento na sua simples menção, ou mesmo "absurdo" - disparate em carne viva, aqueles dias estavam muito bem definidos: Festa Literária. De Paraty.

A seguir, oferecemos uma crônica de www.flip.org.br


Tributo a Guimaraes: O inventor de palavras e mundos

O autor homenageado da FLIP 2004 enveredou pelos grotões brasileiros para fazer uma literatura sem fronteiras. Seus retratos do sertão, embora feitos com conhecimento de causa, nunca se prenderam a qualquer regionalismo, a não ser aquele que acredita que a criação literária é uma região em que as regras só são dadas pela palavra e a imaginação. Mestre na condução de ambas, inigualável inventor de palavras, Guimarães Rosa construiu uma obra absolutamente própria, traduzida para diversas línguas apesar das gigantescas dificuldades de transposição. Seu único romance, Grande Sertão: Veredas, de 1956, é habitualmente considerado como o maior de toda a literatura brasileira. Nele fica claro como um fim de mundo pode dar conta de todo o mundo. Aberta pelo professor e ensaísta Davi Arrigucci Jr. e com direção artística de José Miguel Wisnik, uma programação especial estará lembrando e discutindo em Parati este clássico e toda a obra de Rosa.

João Guimarães Rosa nasceu em 27 de junho de 1908, em Cordisburgo, um pequeno arraial de Minas Gerais. Foi para Belo Horizonte estudar medicina, formando-se em 1930. Ingressou em 1934 na diplomacia, carreira em que chegaria a primeiro-secretário da Embaixada brasileira em Paris e, por duas vezes, chefe de gabinete no Ministério das Relações Exteriores. Seu primeiro livro, a coletânea de poemas Magma, recebeu o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras em 1936, o que não impediu o autor de rejeitá-lo posteriormente. Sua trajetória de brilhante prosador começou com os contos de Sagarana, em 1946. No mesmo ano de Grande Sertão: Veredas, lançou Corpo de Baile, reunião de três novelas que mais tarde passariam a ser publicadas separadamente: Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá, no Pinhém e Noites do Sertão. Depois vieram as Primeiras Estórias (1962) e, pouco antes de morrer de infarto (em 19 de novembro de 1967, três dias após tomar posse na Academia Brasileira de Letras), Tutaméia (Terceiras Estórias). Duas obras foram publicadas postumamente: Estas Estórias (1969) e Ave, Palavra (1970). Nas últimas décadas, estudos, traduções, filmes, peças, minisséries de TV e as mais variadas releituras comprovaram a força infinita da obra de Guimarães Rosa.

 

Guimarães
Rosa

Grande Sertão em Parati

Flávio Moura e Jadyr Pavão
Fotos de Walter Craveiro
O show de abertura da 2a. FLIP estava previsto para começar na quarta às 20h30, mas é difícil encontrar outra qualificação para a aula inaugural de Davi Arrigucci Jr., inciada duas horas antes. Abusando da capacidade de ser claro e de sua espantosa erudição, o professor aposentado de Teoria Literária da USP manteve uma platéia de 500 pessoas absolutamente envolvida por sua exposição, marcada pela oralidade e por uma excepcional capacidade de articulação de idéias.
A partir de noções de Aristóteles, Walter Benjamin e de uma introdução ao enredo do livro, Arrigucci Jr. procurou explicar por que Grande Sertão: Veredas se inscreve entre os maiores romances da literatura universal. Em sua opinião, trata-se de um livro "com vocação à totalidade", uma espécie de súmula da experiência humana. Nele, haveria uma profunda unidade poética caracterizada pela constante mistura de temas e gêneros. "Tudo isso aparece num 'todo muito entrançado'", explicou o professor, aludindo a uma frase do romance.
Para desdobrar seu argumento, Arrigucci Jr. leu o primeiro parágrafo do livro, que abre pela célebre expressão "- Nonada." A figuração do demônio, que nas primeiras linhas se mostra encarnado num animal híbrido, serviu de mote para a exemplificação das diversas passagens em que essa mistura se faz notar. No título, por exemplo, o termo "sertão", vasto, se une a "vereda", que implica delimitação de espaço. Outro exemplo: o encontro entre Riobaldo e Diadorim, passagem decisiva do romance, que se dá no entroncamento do De Janeiro, rio de pequeno porte, e o caudaloso São Francisco. "Esse encontro individualiza o Riobaldo. A partir daí, ele tem uma biografia", frisou Arrrigucci Jr. "O masculino e o feminino, o bem e o mal, a sensualidade, o medo e a coragem, tudo isso se presentifica na vida dele a partir dali".

Apesar da descida vertical que empreendeu em sua análise, o professor não abriu mão de explicar em linhas gerais os pontos decisivos do enredo. Frisou que se trata da narração ininterrupta de um ex- jagunço, agora proprietário de terras, a um visitante "letrado" que não tem voz em momento algum do livro. Enfatizou a paixão homossexual que se estabelece entre ele e Diadorim, filho do jagunço Joca Ramiro. Destacou que a passagem da morte de Diadorim, em duelo com Hermógenes, lhe parece uma das mais pungentes da literatura brasileira (sem deixar de lembrar que é a essa altura que se revela a identidade feminina do personagem). E reconheceu a dificuldade que, a princípio, o livro impõe aos que nele se aventuram. "Não é fácil ultrapassar as trinta primeiras páginas. Mas quem consegue fazê-lo logo percebe que se trata de um romance extraordinário, de paixão, amor, morte e guerras."
Outro ponto crucial de sua exposição foi a tentativa de situar o romance em relação à tradição da narrativa oral. Valendo-se da concepção que Walter Benjamin apresenta para o problema (especialmente no texto O narrador, do qual Arrigucci é um dos principais exegetas no Brasil), o professor insere o livro na tradição do romance, gênero do qual seria representante por excelência. "O texto narra a educação sentimental de um jagunço. Tenta entender o significado de sua vida. E esse ponto, o do destino individual, é próprio do romancista, e não da sabedoria coletiva."
Em contraposição ao que normalmente se afirma, Arrigucci Jr. lembrou ainda que são poucos os neologismos do livro. Em sua maior parte, os termos responsáveis pelo estranhamento exercido por sua linguagem estão presentes no vernáculo, seja como arcaísmos, seja como estrangeirismos. E, também na contramão, destacou a inutilidade de se compará-lo ao Ulisses, de Joyce. "O projeto de escrita de Guimarães Rosa não é joyceano", lembrou.
Conhecedores de Joyce ou não, leitores ou não de Guimarães, os espectadores aplaudiram a palestra com a intensidade com que se saúda um artista no palco. A escolha de Rosa como homenageado da 2a FLIP estava mais que justificada.

 


Os meninos dos olhos de Parati

Era o encontro que todos esperavam: Chico Buarque e Paul Auster. Literalmente, Parati parou para ver os dois. Eram 550 pessoas nos assentos no auditório da Tenda dos Autores, e mais de cem sentadas no chão. Entre os convidados, os cineastas Bruno Barreto, Hector Babenco e Cacá Dieguez, Roberto Irineu e João Roberto Marinho e o jornalista Zuenir Ventura. Na Tenda da Matriz, a poucos metros dali, mais de 1.100 pessoas assistiam ao encontro pelos telões. E na praça, uma multidão.

Paul Auster deu o início literário ao encontro, com a leitura de fragmentos em inglês de Budapeste, mais recente romance do colega. Auster definiu Budapeste como um "excelente e interessante livro", vindo de uma "mente inteligente". Chico acompanhou a leitura atentamente, interessado, e aplaudiu entusiasmado. Respondeu com um trecho de Noite do Oráculo, também publicado no Brasil há pouco. Em seguida, inverteram-se os papéis, e cada um se lançou à própria criação.

Encerradas as leituras, a conversa foi mediada pela presidente da FLIP, Liz Calder, e pelo escritor Milton Hatoum, de Dois Irmãos, um dos mais respeitados autores brasileiros da atualidade. Na pauta, boa literatura, inspiração para a criação artística, relações com a crítica e bom humor de lado a lado.
Seja no Brasil, seja nos Estados Unidos, a crítica literária claramente não agrada aos autores. O americano contou que já recebeu boas e demolidoras avaliações, em momentos diferentes. Em conseqüência, decidiu deixá-las de lado. "A crítica não pode ser levada muito a sério", disse. Curioso é que, no início de carreira, o próprio Auster dedicou-se à atividade. "Mas a abandonei há mais de 20 anos. É coisa para se fazer quando jovem." O brasileiro recordou uma antiga rusga com a crítica nacional. Nos anos 80, ele veio a público e comentou que a avaliação de sua obra musical era "muito ruim". "Então fui considerado autoritário, como se eu rejeitasse a legitimidade de existência da crítica", disse. "Não, eu acho bom que se discuta."

Chico apontou também para o outro lado: os escritores. Discreto, reservado, ele defendeu, porém, um contato mais direto entre autores e entre eles e leitores. "Às vezes, leio entrevistas com escritores que sempre dizem a mesma coisa: 'Estou lendo Flaubert, Dostoievski e Kafka'", provocou. "Ou então: 'Não leio autores contemporâneos'. Ora, se ele não lê os contemporâneos, quem vai ler?" A platéia vibrou. "Então, eu acho que esses escritores são mesmo estranhos." Milton Nascimento, parceiro de Chico em Cio da Terra, diria: "Todo artista tem de ir aonde o povo está."

 





 

 

 

 

 



 

 

 

 

De Guimarães Rosa para o Brasil

Depois da agitação do sábado à noite, quando a conferência conjunta de Chico Buarque e do americano Paul Auster parou Parati, nada melhor do que um domingo de tranqüilidade e deleite. E foi exatamente isso que o mestre José Miguel Wisnik ofereceu ao público na Tenda dos Autores. O intuito era desvendar a novela O recado do morro, de Guimarães Rosa. Mas a fala tranqüila e eloqüente deste professor de literatura que também é músico - ele dirigiu a apresentação musical da FLIP - acabou por explicar o desafio chamado Brasil.

"Guimarães Rosa trata em sua literatura da ambivalência da modernização, que não traz em si a civilização completa ao país", disse. "E o assunto não poderia ser mais atual." Aos olhos de Wisnik, é isso que se vê cotidianamente representado no contraste das ilhas de eficiência econômica margeadas pelas periferias de miséria. O velho contraste de que tratou Euclides da Cunha, há mais de cem anos, em Os sertões, por exemplo.

O recado do morro é uma das sete novelas que compõe o volume Corpo de Baile. Segundo Wisnik, trata-se de uma espécie de alegoria da formação do Brasil. Caminham em tropa um naturalista estrangeiro, um religioso e um letrado - ilustrações dos desbravadores do país. À frente deles, dois homens do interior mineiro, conhecedores da região e do sertão, servem como guias. A trama irá opor os dois homens simples, por meio de uma emboscada de morte, que trará àquele espaço uma nova configuração.

"A história ilustra o mundo sem lei", disse Wisnik. "No sertão, vigora a regra, e não a lei - a regra da aliança e da vingança." Para o autor, estão em jogo ali novamente os destinos da civilização e da cidadania brasileira. "E nós sabemos de que forma a construção da cidadania no Brasil é uma construção dura, sofrida e trabalhosa."

O público que lotava a Tenda aplaudiu de pé. A pedido, Wisnik cogitou transformar a aula sobre O recado do morro em livro, para chegar a mais e mais leitores, muitos que não tiveram a felicidade de estar presentes nos últimos cinco dias em Parati.

 

História e ficção


As implicações do romance histórico, formato em que o autor mistura fato e ficção, foram o tema da discussão que reuniu o português Miguel Sousa Tavares e o argentino Pablo De Santis na manhã de sábado em Parati. Ambos são autores de livros com essas características: Tavares, de Equador, que trata da situação da colônia portuguesa São Tomé e Príncipe, na África, no início do século XX; Pablo De Santis, de O Calígrafo de Voltaire, que insere um funcionário do filósofo iluminista numa trama policial.

O encontro teve início de maneira comovente. Antes de passar ao trecho de seu livro, Tavares leu um poema escrito por sua mãe, morta há apenas oito dias. "Eu tinha desistido de vir, mas encontrei este poema e achei que ela gostaria que eu estivesse aqui", disse o português. "A função dos que estão vivos é honrar os mortos".

Moacyr Scliar, responsável pela mediação do debate, deu início à discussão. O escritor gaúcho fez um preâmbulo sobre a situação do romance histórico no Brasil. Segundo ele, o formato começou a ganhar fôlego no país a partir do fim do regime militar, quando a perplexidade sobre os rumos do Brasil teria levado os escritores a se debruçar sobre a história do país. Ele próprio autor de romances históricos, Scliar considerou que a questão que se impõe ao escritor diz respeito aos modos de lidar ficcionalmente com personagens que existiram na realidade.

Para De Santis, essa questão se impõe desde o título de seu livro. Ele conta que teve a idéia de escrevê-lo a partir de uma pintura que retratava Voltaire, em pé em seu quarto, ao lado de um funcionário que anotava diligentemente suas elucubrações. "Escrever é construir o verossímil. Por isso procuro sempre me enfronhar ao máximo no universo da época abordada", respondeu De Santis. "É preciso evitar os anacronismos".

Já para Tavares, cabe deixar ao leitor o papel de separar o ficcional da realidade. Ainda assim, ele conta que também pesquisa à exaustão antes de escrever. "Tentei desesperadamente descobrir os nomes dos cães de caça do rei de Portugal. Mas, como não consegui, acabei inventando", lembra. Tavares concordou com a afirmação do colega. "Temos de nos situar na época sobre a qual escrevemos. Não dá para olhar para o passado com os olhos do presente."

Em tom diametralmente oposto ao do começo, o português Tavares encerrou o encontro com uma piada de brasileiro. Lula e Madre Teresa, Maluf e Madonna eram os personagens. Os detalhes? Só mesmo perguntando a quem esteve em Parati.

 

 

 

 

 

Discrição e extroversão

O francês Pierre Michon e o pernambucano Raimundo Carrero praticam uma prosa inovadora. Ambos exploram os limites da linguagem para criar narrativas ricas em experimentação formal, como se pode notar em Rimbaud, o Filho, premiado livro de Michon, ou em Ao redor do escorpião... uma tarântula?, de Carrero. Desse ponto de vista, é possível ver semelhanças entre os dois. No que diz respeito à personalidade, contudo, é difícil imaginar temperamentos mais distintos. No encontro que tiveram na manhã de sexta, esse contraste foi um dos pontos de maior interesse.

Franzino, careca, pouco dado a digressões e falando em voz baixa, o francês mostrou-se discreto e lacônico. Mesmo o trecho que selecionou para ler - a parte final de seu livro Vidas minúsculas, a ser lançado em português durante a FLIP -- era curto. Já Carrero abusou da extroversão e da loquacidade. Alto, encorpado, de barbas e cabelos longos, mostrou um bom-humor extremo, leu um trecho extenso do romance que está preparando e falou bastante sobre sua vida e seu processo criativo.

O pouco que disse Michon bastou para desconcertar a platéia. Dirigindo-se ao escritor em francês, a professora de literatura da UFRJ, Beatriz Resende, convidada para mediar o evento, perguntou-lhe sobre o papel da morte em seus textos. Ao que ele respondeu: "Meus personagens falam como se estivessem mortos e vivos ao mesmo tempo. A morte é tudo, então ela pode falar da vida."

Aproveitando a deixa, Carrero tomou caminho diverso. Falou sobre a experiência de assistir à morte de sua mãe, aos 12 anos, e à do pai, aos 40. "No sertão existe essa mania de tragédia", disse o autor, nascido e criado no sertão de Pernambuco. Mas foi igualmente pródigo em comentários sobre o fazer literário. "O escritor não tem estilo. É o personagem que tem", pontificou à certa altura, sob aplausos fervorosos dos alunos da concorrida oficina literária que mantém no Recife.

Da platéia surge outra pergunta, também em francês, para Michon. O espectador quer saber a opinião do artista sobre Proust. E se ele sente prazer ao escrever."Proust?", indaga o escritor. "Todo francês tem que ler". Sem alterar a expressão do rosto, ele emenda: "Prazer? Não tenho. A lágrima e a fruição são muito parecidas". Pela trilha oposta, Carrero atalhou: "Escrever faz uma festa na minha alma".

O pernambucano lembrou ainda o quanto seu trabalho deve a Ariano Suassuna, em cuja casa passava dias inteiros a discutir literatura. Também reconheceu a influência do cordel em seus textos, e, apesar de todo o desembaraço, assumiu seguidas vezes que estava nervoso como nunca.

Misturando o forte sotaque francês a seu melhor estilo econômico, Michon lhe sugeriu um remédio: "cachaçá".

 

 

 

 

 

 

 

Literatura por mulheres

O tema da última mesa de debates da FLIP desta sexta-feira era Vozes Femininas. Para falar dele, foram convidadas três importantes escritoras do cenário internacional, a espanhola Rosa Montero, a uruguaia naturalizada americana Isabel Fonseca e a carioca Adriana Lisboa. Para mediar a conversa, outra representante feminina, a jornalista Cristiane Costa. E mal deu início à conferência, a mediadora disparou: "Nós quatro conversamos nos bastidores sobre o tema e concordamos: não existe uma literatura feminina", disse. A declaração foi uma provocação bem humorada e mostrou que o tema instigou as escritoras.

"É bom discutir isso", resumiu Adriana, "porque é um assunto recorrente". Curiosamente o tema voltou à tona na leitura da escritora brasileira que se seguiu. Em Um beijo de colombina, seu mais recente romance, Adriana deliberadamente elegeu como protagonista um personagem masculino. O intuito, é claro, é provar que uma escritora pode criar com perfeição o universo masculino. "Fiz para demolir o que ainda resta dessa visão que prega que existe uma literatura feminina", disse. "Isso é falso. Não existe literatura feminina ou masculina, existe literatura."

Tomando carona no assunto, a espanhola Rosa diz-se indignada com a tese da literatura feminina. "Quando uma escritora cria um protagonista feminino, dizem que é literatura para mulheres; quando é um escritor quem cria um tipo masculino, dizem que ele fala sobre o gênero humano". O público gostou do que ouviu. Com 26 anos de carreira no exterior, Rosa leu trechos de seu primeiro livro a aparecer em terras tupiniquins, A louca da casa. O livro explora uma zona de contato entre o romance, a autobiografia e o ensaio. "Mas tudo ali é pura invenção", garante Rosa. "A invenção consegue chegar aos grandes temas desconhecidos de nossas vidas." Por isso, ela dedica o livro a uma irmã - que não existe.

Isabel Fonseca leu trechos de Enterrem-me em pé. O livro nasceu a partir de uma aventura inusitada: durante quatro anos a escritora acompanhou ciganos que migraram da Albânia para a Polônia, registrando suas histórias e o bombardeamento de sua cultura patrocinado por forças políticas. A exemplo de Rosa, Isabel apontou a importância da invenção - vista como "mentira", no caso do ciganos - para a sobrevivência humana. "A fabulação da realidade faz parte de um processo de recriação de nós mesmos, especialmente necessário no caso daquelas pessoas que perderam tudo."
As escritoras derrubaram definitivamente qualquer tentativa de ligá-las à tal literatura feminina. Não fugiram, porém, de falar da vida de escritoras mulheres de escritores. Adriana Lisboa é casada com Flávio Carneiro; Isabel Fonseca, com o inglês Martin Amis, que dividirá mesa na FLIP no sábado com o compatriota Ian McEwan. "Como é dividir tudo, casa, computador...?", brincou Cristiane Costa. Adriana diz não ver dificuldades: "Eu trabalho na sala, onde circulam meu filho, meu marido e meu cachorro. O escritório dele já é fechado, e se entro lá..." Isabel apontou facilidades. "Escrever é um trabalho solitário e o fato de ele ser escritor faz com que ele entenda minhas necessidades, quando preciso trabalhar mais, ou ficar só", disse. Para encerrar, uma ótima máxima de Amis sobre a importância da solidão para os criadores: o escritor, quanto mais sozinho, mais vivo.

 

 

 

 

 

 

 

Humor: a favor?

Língua afiada e rapidez nas repostas, eis os ingredientes que não faltaram ao encontro que reuniu Ziraldo, Angeli e Luis Fernando Verissimo na tarde de sábado. A certa altura, por exemplo, a luz faltou por uma fração de segundo. Assim que voltou, Angeli não teve dúvidas: "Foi o João Ubaldo", disparou ao microfone, levando o público que lotava o auditório à gargalhada.

Pouco depois, foi a vez de Verissimo. Da platéia lhe perguntaram para qual momento da vida ele voltaria se pudesse escolher. De pronto, o cronista rebateu: "Serve o útero materno?".

Nessa toada, a conversa seguiu. O tema proposto para a mesa era "humor nos tempos de Lula". Responsável pela ressurreição do Pasquim, Ziraldo foi o primeiro a se pronunciar sobre o assunto. Ele afirmou que prefere se abster a criticar o governo em seu jornal.

Conhecido pela militância de esquerda, o humorista e escritor afirmou que passou a vida inteira lutando para que seu grupo chegasse ao poder. Quando isso finalmente acontece, por mais problemas que o governo apresente, acredita que não faz sentido criticar. Daí que o Pasquim esteja deixando de circular. "Não dá para fazer um jornal que apóie o governo", lamentou.

Verissimo, também simpatizante histórico da esquerda, foi na mesma direção. "Até que ponto criticar o Lula não é fazer o jogo da direita? É preciso paciência com as incoerências do governo, para que possamos ser coerentes com nós mesmos", afirmou o autor de Comédias da Vida Privada.

Famoso pela timidez e pela aversão a falar em público, Verissimo se mostrou especialmente loquaz quando o assunto enveredou para esse lado. Crítico feroz de FHC, ele estabeleceu um raciocínio que sacudiu a platéia. "Se FHC fez um governo que parecia o PFL, e se Lula faz um governo que parece o PSDB, então talvez o melhor fosse eleger o Maluf", ponderou. "Quem sabe ele não faria um governo de esquerda".


Angeli, por sua vez, mostrou-se menos envolvido com essa questão. Em suas próprias palavras, o humor que pratica não é "edificante". "Há dois tipos de humorista: o demolidor e o que procura soluções", considerou. "E eu me considero do tipo demolidor".

João Ubaldo que o diga.

 

 

 

 

 

 

 

 

Epílogo com gosto de 'quero mais'

O evento que encerrou a segunda edição da FLIP reservou uma surpresa. Um dos sete convidados a ler trechos de seu livro preferido, o inglês Martin Amis elegeu Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. "Ele criou a literatura moderna e pós-moderna, além de ter sido um precursor do realismo fantástico", disse.

Paul Auster foi outro que entusiasmou o auditório. Ele leu Watt, livro de Samuel Beckett escrito durante a Segunda Guerra Mundial. O trecho escolhido chamou a atenção pela repetição dos termos mother e father, aliterações e pela interpretação elegante e bem-humorada. O francês Pierre Michon fez uma leitura comovida, e, para espanto a platéia, quase inteira de cor. Recitou o poema "Booz Endormi", parte do épico La legende des siècles, escrito em 1859 por Victor Hugo.

O português Miguel de Sousa Tavares também optou por um clássico da literatura francesa. Escolheu Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar. Entre os brasileiros, a escolha foi eclética. Joca Terron leu Lugar Público, do escritor marginal José Agrippino de Paula. Por sua vez, o romancista Milton Hatoum tomou o caminho oposto, escolhendo um clássico da literatura brasileira: Infância, de Graciliano Ramos.

Já Margaret Atwood causou certo estranhamento. A autora canadense preferiu criticar a composição da mesa, em que era a única mulher, e discorreu brevemente sobre sua trajetória como leitora, ao descobrir escritoras como Jane Austen.

Assim que o diretor artístico da FLIP, Flávio Pinheiro, deu a Festa por encerrada, um misto de resignação e euforia tomou conta do auditório. De pé, os leitores aplaudiram com entusiasmo não apenas este encontro, mas as 19 mesas e os quatro dias imersos numa atmosfera em que a melhor produção intelectual se aliou a um ambiente de festa e confraternização. Que assim seja em 2005.

 
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