El fin de
la infancia por Malena Scunio
Esa
sensación de un destierro que recuerda a la expulsión
del paraíso, el paraíso perdido para siempre,
la infancia. Y aquel Edén no se enarbolaba sobre
sucesos paradisíacos vividos en la infancia, sino
que se arraigaba en una cierta mirada, en la inocencia (estaban
desnudos y no se avergonzaban) una mirada infantil, agraciada.
Y
lo primero que en mi caso (y no soy ningún caso,
sino una cosa, una casa, una cuca) se desprende de la pregunta
sobre ese destierro es "la muerte del padre" y
"el sexo y el amor". Y ambas cosas/casos/casas
fueron vividas en mi historia como cortes en la carne, finales
que son inicios, pero sobre todo fueron libertaciones. Y
siendo una tierra liberada, sola, pero de una soledad que
es una conquista, unos ojos nuevos. Pero una soledad que
no tiene asidero, que no vuelve atrás, que huye hacia
el frente, un frente de guerra? Una guerra. Tal vez una
guerra librada contra el fantasma de lo que debería,
contra el fantasma que se refugiaba en mi cuarto infantil
cuando me dormía arrullada por mí. Y quién
sabe aquel fantasma está vivo como era.
Y
después el tiempo. Y chiquita de nuevo. Después
de los cortes, los finales iniciáticos, las libertaciones
del cuerpo y la guerra, después de ingerir y digerir,
sorpresivamente infanta de nuevo. Una mujer autónoma
(o autómata?) con un corazoncito niño, tímido,
asmático.
Y
fue que aconteció un nuevo encuentro, un otro amor,
lo que involucra del cuerpo, el cuerpo, una sed desconocida.
Un hijito. De ser 1 a ser 2 (de nuevo el corte, el alarido,
la creación). De ser 2 a ser 3. Y en el 3 me detengo.
La tríada es la relación. En la dupla nos
amábamos y nos mirábamos al espejo. En la
tríada nos reproducimos y nos relacionamos, desciframos
mensajes, inventamos el tiempo, procuramos un paraíso.
¿Será que la infancia llega a su fin después
de tanto y tanto amor? ¿O simplemente ya no hay un
lugar para ella y se queda sola, nostálgica y desterrada,
jugando a las visitas que vienen a tomar el té?
Sobre o fim da infância
por Luciano Fialkowsky
Caminho em que se anda é caminho
que desponta.
Ou se recolhem as contas que nele se encontram
ou se encolhe a lona do circo que se monta.
Por onde começar a falar sobre o fim da infância?
Tal como uma elipse, algum dizer que tenha o caráter
de aproximação-afastamento? Fort-Da?
De um dizer que não tenha o mesmo modo de certeza
que tem uma criança? Tal é o que desperta
a questão que chega por e-mail, dos amigos de Espaciopotencial.
Desde onde não é mais possível a infância,
daí sim se poder dizer algo sobre ela? Neste sentido,
falar do fim da infância é poder perdê-la
a cada volta, a cada vez? A existência da infância
como fato social ou como realidade de estrutura? Eis aí
uma contribuição preliminar para este interessante
tema.
Me faz recordar de imediato uma passagem da Odisséia,
de Homero, onde Telêmaco, filho de Ulisses realiza
a passagem para a adolescência. De que essa passagem
só ocorre graças a uma mudança, que
Homero caracteriza como "não falar mais como
criança". Quer dizer, o fim da infância
seria uma mudança no discurso? Mas, como aparece
no poema, essa passagem só se dá por um ato
do próprio Telêmaco. E o ato que engendra um
discurso, não mais infantil, adquire, para Telêmaco
o peso dessa passagem de criança para adolescente.
Como vai se dar isso?
Vivendo com a mãe e, diante da ausência do
pai Ulisses, e do assédio de pretendentes, Telêmaco
recebe a visita inspiradora da deusa Atena, personificada
na figura de um antigo amigo da família, Mentes,
que o visita. Em sua permanência este constata os
desmandos e o caos na casa de Ulisses. Mentes se dirige,
então, a Telêmaco, e lhe observa que, se quiser
resgatar a dignidade e o reino de Ítaca, deve "deixar
de falar como criança". Ou seja, de que alguma
fala deve terminar. E ao ser remetido a sua fala como uma
fala de criança, fá-lo se dar conta de algo
que está para um fim. Como o fim, ou morte, de
um discurso? Quer dizer, que era necessário uma
reação de Telêmaco ante sua atitude
infantil, tomado pela impotência, manifesta no discurso,
se quisesse resgatar a sua casa a continuidade do seu pai?
(Me ocorre uma passagem, na Bíblia, se não
me engano está no Novo Testamento, em que o personagem
diz, mais ou menos assim: "Quando eras criança,
agias como criança, pensavas como criança,
falavas como criança. Agora, ...").
Eis que Telêmaco, reconhecendo a inadequação
entre o modo com que os pretendentes usurpavam o espaço
do reino de seu pai, e vendo que sua mãe não
tomava nenhuma atitude eficaz para afastá-los, se
dirige a Penélope e, com voz firme, diz a ela que
deve se recolher ao seu tear, a seus aposentos. Há
uma 'virada' em sua postura de menino perante sua mãe,
agora como quem fala com voz autorizada desde si mesmo,
a assumir um lugar de comando, no lugar de seu pai ausente,
como sendo este o momento de passagem para a adolescência
(e, por sua vez, o fim de sua infância?) Como dizia,
uma mudança que se opera como ato de discurso, mas
que tem a participação de um terceiro, que
é uma deusa (Atena), sublimada numa figura concreta
(Mentes), como um fato de estrutura. Este discurso que,
ali, se dirige à mãe. No poema é a
partir dali também que Telêmaco resolve ir
em busca do pai, portanto, sair da impotência do discurso
infantil. Mais do que isso, se tratava de ir em busca de
outros saberes. E assim, se encontra com Nestor e
depois com Menelau, com quem aprende outros saberes que
permitem afirmar sua disposição de comando
em Ítaca. Podemos pensar o fim da infância
como a queda do saber absoluto (crença cega)
nas figuras parentais? (Há um momento, no poema,
que Telêmaco desconfia de que Ulisses seja mesmo seu
pai, por exemplo).
Outra referência que permite pensar o fim da infância,
são os rituais de iniciação, como os
que Jean Houston registra, onde as crianças da tribo
Hopi, inicialmente vivem a transmissão das
experiências religiosas, através de figuras
caricaturadas, mascaradas, que realizam atos fantásticos,
como sendo os deuses kachinas da sua cultura. Num
dado momento são reunidas num cerimonial, onde as
máscaras são retiradas e os "deuses"
se revelam como sendo a pessoa de seus pais e tios. Há
um momento traumático, de desencantamento; sentem-se
terem sido ludibriadas, a partir do qual se dá a
iniciação para a vida social da tribo, ponto
que se pode associar como o fim da infância.
Parece haver na cultura ocidental, alguns traços
desse mesmo princípio divisor de águas, quando
as crianças vivem figuras mágicas, com formas
e poderes transcendentes, (como no Brasil, o Papai Noel,
o Coelho da Páscoa). Até que esses mitos se
desmascaram para as crianças, cujo desencantamento
traz a frustração de não mais receber
'presentes de Papai Noel', apenas presentes de Natal ou
Páscoa. Os adultos, revivem essa fase, geralmente
um deles ocupando o personagem mítico, criando a
idéia mítica para as crianças, mantendo-as
em estado de encantamento, até não ser mais
possível convencê-las da 'verdade' daquela
pantomima. A farsa, aos poucos, adquire um novo sentido
para a criança. Não deixa de ser, portanto,
uma experiência traumática, como esse fim de
infância, sendo que o desencanto produz a perda da
ingenuidade infantil. Talvez esse, como todo desencantamento,
permite a assunção a um nível de consciência
que prepara a criança para encarar a vida ou um saber
de maneira autônoma. Será a partir daí
que surge a reflexão sobre a vida?
Tal como constrói Lacan, em Posição
do Inconsciente (Escritos), a idéia de uma operação
para a causação do sujeito, colocando como
primeiro momento a alienação significante.
Quer dizer, momento em que o crédito absoluto no
dizer do outro, retira o infans para a condição
de falar de maneira estruturada a língua da mãe.
E, numa segunda operação, que designa
como separação, quer dizer, momento
em que fala desde si próprio um discurso.
Podemos pensar, portanto, que tudo o que constitui a infância
vai pertencer à estrutura, cuja volta, a cada vez,
produz a sua perda, em favor de um nível de entendimento
mais elevado. Assim como, quando lemos pela primeira vez
Freud, constituimos essa alienação significante,
cremos nas palavras que diz, para, depois, a cada releitura,
alçar a um nível de entendimento mais elevado
do que a pura crença primeira, até por escutar
outros saberes sobre a psicanálise? De tal modo
que, para escrevermos sobre qualquer pensamento, realizamos
esse duplo movimento: de retorno à infância
(acreditamos nalguma idéia) e nos separamos, num
segundo momento, daquela crença primeira, a partir
do que podemos elaborar um sentido novo à
idéia, mesmo que esta seja a que já fora descrita
por outros, porém dito à nossa própria
maneira. 'À nossa própria maneira', talvez
seja o exercício que começa a marcar, para
a infância, o seu fim...
Por fim, que, na melhor das vias do processo, culmine com
a conquista de um estilo? O fim é o estilo? Ou o
estilo é o fim? O fim do grão, o caminho?
Talvez, todos buscamos nos encontrar, de tempos em tempos,
com alguma ponta de iceberg que nos salve de um naufrágio...