Sento-me
para escrever um diário que de alguma maneira registre
a sensação que guardo ao retornar desses dias
em Buenos Aires. É verdade que um diário,
em geral, se escreve durante a viagem, no dia mesmo das
experiências relatadas. No entanto, me ponho a escrever
tardiamente, numa tentativa de retorno à memória
que, gratamente, insiste em permanecer em mim, tornando
os meus dias mais férteis.
Penso
na memória como uma potencialidade criativa e não
como um compartimento interno de armazenamento de informações.
Penso que, se me lembro de uma manhã com chocolate,
churros e jornal na Confeitaria "La Giralda",
lembro também daquilo que acabo de criar neste momento
a respeito dessa bela imagem e isso se mistura ao dia que
passou em que "realmente" estive ali sobre Corrientes.
Parece que a memória é plena de desejos e
se mostra ativa, criadora. Como o sujeito que ao responder
à pergunta: como é a sua mãe? se vê
diante de duas imagens sobrepostas, confusas, vê a
mãe envelhecida, cheia de problemas, com reumatismo,
e abobalhada diante da tv, mas vê também aquela
mulher de chapéu de abas largas, olhando o horizonte
numa praia desconhecida, fumando cigarros sensuais e deixando
o vento bater nos seus cabelos. Qual será a verdadeira
lembrança? Mas o que é a verdade e o que é
a mentira sob o ponto de vista da memória?
Penso
que a realidade sensível, aquilo que vemos, uma paisagem
por exemplo, é uma ilusão em si mesma. Quero
dizer que ela só existe na minha subjetividade, assim
como eu ou você só existimos no movimento em
direção ao outro. É difícil
sustentar a imagem de alguém existindo tão
somente por si e em si. Se eu te olho, existo na ação
de olhar para você e não independente
de qualquer projeção subjetiva. Onde, enfim,
estará a realidade e a ilusão? Talvez a memória
congregue essas duas idéias, e tome uma pela outra,
e nos revire dentro de nós mesmos e nos torne mais
potentes. Como num jogo de "cabra-cega", em que
temos os olhos vendados e nos rodopiam no ar até
que estejamos tontos e perdidos e é justamente nessa
condição e nesse momento que temos de encontrar
alguém para que o jogo continue e outra pessoa possa
ter os olhos vendados, e assim por diante. É essa
a brincadeira. É essa a brincadeira?
Foi
aí que aconteceu de eu tocar alguém e dar
continuidade ao jogo. Tirei a venda dos olhos numa manhã
de um pequeno quarto de hotel em Palermo Viejo - Hotel Sandolfe;
Carranza y Soler. Era uma sexta-feira e sabia que naquela
noite era necessário voltar a ser "cabra-cega".
Alguém tinha a venda nos olhos, não lembro
quem, mas alguém as tinha, porque o jogo continuava.
Depois do banho passei na padaria sobre Bonplan e comprei
as já habituais empanadas e facturas, subi ao apartamento
quente e acolhedor dos melhores amigos, comemos com vinho,
risadas e a presença soberana da criança mais
linda. Fui advertido de que aquelas empanadas não
eram das melhores, mas com a boca cheia não dei nenhuma
importância. Passei uma tarde maravilhosa, fui solicitado
inclusive para cuidar da Chiara enquanto seus pais nadavam
em algum lugar em "Las Cañitas". Passeamos
muito, tomamos submarino, tive a ilusão de ser pai,
por alguns minutos nos perdemos de Paula e Daniel e isso
nos causou muito espanto. Tomamos mais um café. Início
da noite: de volta ao hotel adormeci por meia hora e me
preparei para aportar na Ilha dos Piratas. Fomos engasgando
ansiosos dentro do carro-barco vermelho de Daniel até
a rua Oro. Pensei que alguém deveria me pegar, era
novamente a minha vez de ser a "cabra-cega". Subimos
numa linda casa cheia de máscaras nas paredes. Começamos
a arrumar a sala para recepcionar o público e foi
no momento em que lutávamos todos, sem habilidade
alguma, contra um exército de equipamentos eletrônicos,
fios, tomadas, televisores e aparelhos de vídeo,
que alguém , não lembro quem, me tocou e tive
que vendar os olhos. Novamente o jogo continuava e estava
comigo. Deu-se o encontro. Lembro-me das pessoas chegando,
das bolsas e casacos na sala ao lado, de alguns amigos na
platéia, de me sentir deliciosamente nervoso, de
falar do que sabia e do que não sabia, de ouvir atento,
de compartilhar minha obra, de me sentir acolhido, de tentar
tocar as pessoas para, novamente, dar continuidade ao jogo.
Lembro-me do vinho doce, da lucidez e poesia de Daniel,
do afeto e talento de atriz de Paula, das tantas conversas
de depois, do Cortázar que surgiu dessas conversas.
Lembro-me dos olhares que trocamos além das palavras
e que nos fizeram existir nesse movimento, investidos de
ilusão-realidade. Lembro-me de ter conhecido Omar
(1),
o próximo pirata a chegar nessa ilha de delírios
verdadeiros, tão necessários nesses tempos
de fúria. Lembro muito da sua música. Mas
lembro sobretudo das empanadas jamon y queso. Sim, agora
sei o que são boas empanadas! E que se dissipem nossas
palavras, como diria Octavio Paz.
Incluo
neste diário fajuto, além da reprodução
tirana dos fatos, a minha eterna gratidão e amor
aos meus queridos amigos, aos seus olhos claros e ouvidos
atentos, a nossa capacidade de simplesmente estar, a todas
as nossas ilhas. Incluo também uma pergunta-comentário
(2) a ser dirigida ao sereno Omar e que alguém,
não sei quem, corra e passe a venda para ele, continuando
o jogo.
Sigo
com vocês, na Ilha de Piratas.
Com
todo o afeto,
Marcio Abreu
Curitiba, setembro de 2002
1 -
Omar Cyrulnik
2 - Omar, em primeiro lugar, obrigado pelo encontro e por
sua música. Te pergunto sobre os silêncios.
Quando escuto a sua música, ouço também
os silêncios, e muito fortemente. Eles são
espaços preenchidos, são também como
janelas que revelam muitas imagens. Quando tive a oportunidade
de assisti-lo ao vivo, percebi mais ainda que o teu som
tem a propriedade de preencher o espaço, de resignificá-lo.
Ou seja, naquela igreja em San Telmo éramos a tua
música. O que você pensa disso, como é
o silêncio na sua criação, na sua vida?
Um abraço!