Reseña
del artículo por Paula Larotonda:
El autor analiza la importancia que la música
tiene en la obra y en la vida de Donald Winnicott.
Dice: "la música aparece explícitamente
en la obra de Winnicott en términos muy interesantes.
Al reflexionar sobre la vida intrauterina del bebé,
se refiere a la posibilidad nada despreciable de que
los sonidos corporales de la madre serían percibidos
y registrados por el feto. Los latidos cardíacos,
la respiración, los ruidos producidos por el
proceso digestivo, y ciertamente la voz, son considerados
como presencias inevitables en el incipiente sistema
sensorio del feto..."
Se apoya, para su elaboración, en ciertos conceptos
que Winnicott despliega en "La Naturaleza Humana":
..."Muchos
seres humanos portan consigo recuerdos corporales
del proceso de nacimiento, como un ejemplo notorio
de una demora que está mas allá de su
comprensión, ya que para el bebé que
reacciona ante la intrusión de un parto demorado
no hay precedentes ni varas de medida con los cuales
comparar esa demora o predecir sus resultados. En
un nacimiento demorado, no hay forma de transmitirle
al bebé que en media hora más, o algo
así, se terminará todo y por este motivo
el bebé es víctima de una demora indefinida
o infinita". Este tipo de experiencia penosa
sirve como base poderosa para una cuestión
como la de la forma musical, donde dentro de un esquema
que no es rígido se mantiene ante el oyente,
desde el principio, la idea de un final. La música
sin forma es aburrida. La ausencia de formas es infinitamente
aburrida para aquellos a quienes les preocupa particularmente
este tipo de angustia, a raíz de las demoras
que ocurrieron en su infancia y que sobrepasaron su
poder de comprensión. La música dotada
de una estructura formal clara trae aparejada una
tranquilidad, aparte por entero de sus demás
valores"(...) El cambio fundamental del proceso
de nacimiento es el pasaje de no respirar a respirar.
Dispongo de pruebas extraídas de la labor clínica
según las cuales el bebe puede percatarse de
la respiración de la madre en el sentido de
los movimientos del vientre o de los cambios rítmicos
de la presión o los sonidos, y luego del nacimiento
puede necesitar restablecer el contacto con el funcionamiento
fisiológico de la madre, en especial con su
respiración (...) Por cierto que los bebes,
sin saber lo que hacen, juegan con ritmos y con ritmos
cruzados, y la observación cuidadosa muestra
a veces que su movimiento respiratorio trabaja de
forma acorde con el del corazón (por ejemplo,
inspiran y espiran cada cuatro latidos). Un poco más
adelante se los encontrará abordando la diferencia
entre su ritmo respiratorio y el de sus madres...
(1)
Luego desarrolla extensamente el concepto winnicottiano
de espacio transicional, para concluir que la música
es uno de los elementos de mayor penetración
en esa zona intermedia entre lo subjetivo y lo objetivo.
Finalmente piensa también a la música
como objeto transicional por excelencia: "...la
música viene de afuera, muchas veces, pero
al reproducirla, y también al oírla,
en verdad la creamos, y no apenas recreamos (...)
vivenciamos claramente el placer de inventarla de
nuevo, y es precisamente esta la definición
winnicottiana de objeto transicional: algo que no
podemos definir como habiendo sido encontrado, por
el simple hecho de que su valor está dado por
la experiencia de haberlo inventado (...) La música
es pues, un puente entre el mundo interno, del yo
mas personal e intransferible, y el mundo externo,
donde compartimos la realidad con los otros. Si para
Freud, el sueño era la vía regia para
acceder al inconciente, la música es el puente
que lleva al yo mas profundo y verdadero..."
WINNICOTT E A MÚSICA OU WINNICOTT PARA MUSICOTERAPEUTAS
Por Davy Bogomoletz
Um
estudo do valor da música para D. W. Winnicott
deveria merecer uma dedicação bem maior
do que a que me é possível no momento.
Farei, pois, uma despretensiosa abordagem introdutória,
uma espécie de 'cartão de visitas'.
Um dia, espero poder realizar um estudo mais extenso
do tema, pois tanto a fonte, quanto os destinatários
e o tema, o merecem.
Gostaria de começar por algo que sempre 'ouvi
dizer', mas de que não mais localizo a fonte.
É que Freud não gostava muito de música.
Não tinha, o velho mestre, muita paciência
para com essa arte. Sabe-se que viu a ópera
"Carmen", em Paris, que muito o impressionou.
Gostava muito também do "Don Giovanni",
de Mozart, mas "A Flauta Mágica",
por exemplo, não lhe agradou tanto. (Cf. Jones,
"Vida e Obra de S. Freud", Imago.) Ele era
amigo do compositor Schoenberg, e tratou de Gustav
Mahler, mas não encontrei menções
à obra dos dois. Fica-se, por fim, com a impressão
de que para Freud a música era um passatempo
'menor'.
Foi muito bom encontrar, quando eu já não
estava mais procurando, uma referência textual
a esta questão. Em "Lendo Freud",
Peter Gay publica um interessantíssimo ensaio
a respeito da obsessiva busca de Freud pela verdadeiro
autor das obras atribuídas a Shakespeare. A
certa altura, analisando a forma pela qual Freud se
interessava pelas obras de arte, Gay diz: "Num
artigo anônimo [o "Moisés de Michelangelo",
assim publicado primeiramente em Imago em 1914, tendo
Freud assumido a autoria somente em 1924] Freud se
descrevia mais como um leigo que como um conhecedor
de arte, alguém que se sentia 'mais atraído
pelo tema de uma obra de arte que pelas suas propriedades
técnicas ou formais'. Daí a música
ser algo quase inacessível para ele, pois,
como confessava, só conseguia obter prazer
de uma obra de arte se, depois de contemplá-la
por algum tempo, conseguisse 'captá-la à
minha maneira, isto é, compreendendo os meios
pelos quais ela provoca uma determinada impressão.'
Ele atribuía a sua incapacidade de apreciar
aquilo que não conseguia compreender a 'uma
maneira de pensar racionalista, ou talvez analítica.'
Não é muito fácil deduzir, pois,
que Freud, o homem, era - como se diz hoje em dia
- regido pelo hemisfério esquerdo do cérebro.
Ele era fascinado pelo sentido, e sabemos que na música
há sentido de modo apenas remotamente indireto.
Seu reino era o reino da palavra, e não há
dúvida de que, nesse reino, ele foi um soberano
de imenso poder e vastíssima sabedoria. Mas
a música não fazia parte de seus interesses
pessoais.
Já Winnicott tinha, na música, uma companhia
quase inseparável. Ele adorava Bach. Suas referências
aos últimos quartetos de Beethoven só
podem comparar-se à suprema admiração
que Freud tinha pelo "Fausto" de Goethe.
Tivesse eu um pouco mais de tempo e menos preocupações,
tentaria fazer uma reflexão sobre a personalidade
dos dois mestres, a partir dessa sua relação
com a música. É uma idéia tentadora,
mas para mim impossível agora. Winnicott tocava
piano, e sempre alegrava as festas e reuniões,
e na última década de sua vida aderiu
inteiramente aos Beatles, de quem tornou-se um grande
fã - tinha todos os seus discos. (Quando eles
surgiram ele tinha já mais de sessenta anos.
Todo o mundo foi fã dos Beatles aos 14 anos.
Mas beatlemaníacos sexagenários não
eram tão frequentes assim...) (Histórias
contadas por Clare Winnicott.)
Pelo que sei, Freud prezava muito a seriedade, apesar
de ter sido um grande contador de piadas. Já
Winnicott era basicamente brincalhão, ainda
que inteiramente sério quando era o caso. A
poesia com que Freud se deleitava era a 'Grande Poesia',
se assim se pode dizer. Sua educação
clássica e germanófila não foi
imposta, foi adquirida com prazer. Winnicott gostava
dos clássicos, evidentemente, mas saboreava
com frequência a poesia lírica de autores
menos 'grandes'. (Era a Clare que lhe contava os poemas,
enquanto ele lhe tocava as músicas...)
Mas vamos ao que interessa. A música aparece
explicitamente na obra de Winnicott em termos muito
interessantes. Ao refletir sobre a vida intra-uterina
do bebê, ele se refere à possibilidade
nada desprezível de que os sons corporais da
mãe seriam percebidos e registrados pelo feto.
Os batimentos cardíacos, a respiração,
os ruídos produzidos pelo processo digestivo,
e certamente a voz, são considerados por como
presenças inevitáveis no incipiente
sistema sensório do feto. Tanto assim é,
que ele diz ter observado bebês brincando de
'acertar seu ritmo respiratório com a frequência
cardíaca (por exemplo, respirando uma vez a
cada 4 batimentos cardíacos). Algum tempo depois
é possível encontrá-lo (ao bebê)
lidando com a diferença entre o seu ritmo respiratório
e o da mãe, procurando talvez criar situações
de relacionamento baseadas primeiramente numa respiração
de frequência dupla ou tripla'. ("Natureza
Humana", pág. 168).
Mas não é só. Duas páginas
antes, ao falar da questão tão angustiante
do parto anormal, Winnicott diz algumas coisas que,
ocorre-me, seriam de especial importância para
os musicoterapêutas.
'Com (tudo) isto, quero dizer que o bebê tem
uma série de impulsos e que a progressão
em direção ao nascer surge no interior
da capacidade do bebê de se sentir responsável.
Sabemos obviamente que o nascimento foi provocado
pelas contrações uterinas. (Mas) Do
ponto de vista do bebê, foi o seu próprio
impulso que produziu as mudanças e a progressão
física, em geral começando pela cabeça,
em direção a uma nova e desconhecida
posição. (...) Estou presumindo, portanto,
que no nascimento normal não há antecipação
nem adiamento. (...) A variável mais importante
aqui é o adiamento, muito frequente nos processos
de parto pelo fato de, em nossa cultura, as mães
começarem a ter bebês um tanto tarde.
Isto, somado às inibições típicas
da civilização, acrescido ainda do fato
representado pelas dimensões da cabeça
do bebê humano, produz um estado de coisas no
qual podemos esperar uma elevada taxa de partos anormais.
Ligeiros graus de adiamento superiores à capacidade
do bebê de tolerá-los devem ser bastante
comuns, e clinicamente é possível encontrar
aqui a base para um interesse intelectual na questão
do tempo, do parcelamento do tempo, e do desenvolvimento
de um senso de timing.
'Muitos seres humanos trazem memórias corporais
do processo de nascimento, como um exemplo marcante
de um adiamento para além da compreensão,
já que para o bebê que reage à
intrusão de um parto adiado não há
precedentes nem unidades de medida possíveis
pelas quais mensurar o adiamento ou prever as consequências.
Não há meios de fazer o bebê saber,
durante um parto demorado, que meia hora ou algo equivalente
será suficiente para resolver o problema, e
por esta razão o bebê é apanhado
por uma espera indefinida ou 'infinita'. Esse tipo
de experiências dolorosas fornece uma base muito
poderosa para coisas tais como a questão da
forma na música, onde, sem a rigidez da moldura,
a idéia do fim é mantida diante do ouvinte
desde o início. A música sem forma aborrece.
E a inexistência de formas é infinitamente
enfadonha para aqueles que se sentem particularmente
aflitos por esse tipo de ansiedade, por conta de adiamentos
impossíveis de compreender ocorridos em sua
primeira infância. A música dotada de
estrutura formal clara é reasseguradora em
si mesma, para além de seus outros valores
musicais propriamente ditos.
'Este é um exemplo bastante sofisticado. Muitas
pessoas não conseguem utilizar a forma para
reassegurar-se contra a sensação do
infinito. Para estas, é necessária uma
programação rígida, baseada em
marcações rigorosas comandadas pelo
relógio, para não serem avassaladas
pelo aborrecimento. A idéia de um adiamento
infinito deriva muito provavelmente de um processo
de nascimento não inteiramente normal, tornando
especialmente importante para certos bebês a
habilidade de adivinhar as probabilidades mentalmente,
de modo a poderem prever a hora da comida baseando-se
nos sons que vêm da cozinha, ou tolerar uma
eventual demora pela compreensão das razões
que impedem a sua mãe de ser pontual.
'No processo de nascimento ocorre essa grande mudança
devida ao início do ato de respirar. Possuo
evidências provenientes do trabalho clínico
que mostram que o bebê pode se tornar consciente
da respiração da mãe, no sentido
de perceber os movimentos abdominais ou as mudanças
rítmicas de pressão e ruído,
e como após o nascimento o bebê pode
vir a necessitar de um reatamento do contato com as
funções fisiológicas da mãe,
especialmente sua respiração. Por esta
razão, acredito ser provável que certos
bebês precisem do contato pele a pele com a
mãe, e especialmente da sensação
de serem movimentados pelo sobe e desce de sua barriga.
É possível que para o bebê recém-nascido
a respiração significativa seja a da
mãe, enquanto sua própria respiração
acelerada não tem sentido algum, até
que esta comece a se aproximar da frequência
do ritmo respiratório da mãe. Com certeza
muitos bebês, sem saberem o que estão
fazendo, brincam com ritmos e contra-ritmos...'
Fiz
questão de citar tão longamente o texto
winnicottiano, porque pareceu-me que a profusão
de detalhes significativos não poderia ser
suprimida. Sei, por meu contato com a musicoterapia,
que uma das palavras chave nesse tipo de trabalho
é o termo 'regressão', indicando aquilo
que em psicanálise se refere à retomada
de experiências primitivas, desenterradas do
fundo da memória para servirem de base sólida
para o esforço de retomar o processo de crescimento
alguma vez interrompido ou prejudicado. Sobre isto
Winnicott tem obviamente muitíssimo a dizer,
pois suas formulações sobre o verdadeiro
e o falso selves são conhecidas de todos.
Que a música seja uma linguagem não
verbal, por isso especialmente apropriada para estabelecer
contato com o verdadeiro self pouco amadurecido, escondido
no fundo do falso self, nada tem de novidade. O que
gostaria de acrescentar aqui é uma outra dimensão
da teoria winnicottiana, não tão conhecida
quanto a questão do verdadeiro self.
Trata-se do conceito de 'Espaço Transicional'.
Todos conhecem as formulações de Winnicott
sobre o 'objeto transicional', o mais que famoso ursinho
de pelúcia que certas crianças carregam
como se fossem quase partes do próprio corpo.
A natureza especial desse objeto, sempre um objeto
físico (e às vezes uma pessoa), é
que ele é vivido pela criança como se
fosse ao mesmo tempo um produto de sua fantasia. Ou
seja, o objeto transicional está a meio caminho,
digamos, entre uma imagem de sonho e um objeto material
propriamente dito. Melhor dizendo, ele é as
duas coisas ao mesmo tempo, ainda que filosoficamente
isto pareça uma impossibilidade. Essa é,
porém, a verdadeira 'natureza' do objeto transicional,
constituindo-se ele, portanto, num paradoxo.
Esta idéia foi sugerida por Winnicott pela
primeira vez em 1951. Já no fim da vida, em
1967, ele publicou um trabalho no livro "O Brincar
e a Realidade", denominado "O Lugar da Experiência
Cultural", em que a idéia do objeto transicional
foi levada às suas últimas consequências.
Pouca gente notou, até onde me foi dado saber,
que esse trabalho inscreveu Winnicott no mais moderno
contexto da ciência atual, com suas formulações
cada vez menos mecânico-racionalistas, e cada
vez mais poético-oníricas. A velha distinção
freudiana entre princípio da realidade e princípio
do prazer, com a qual ele próprio já
havia derrubado definitivamente o mito do 'homem racional',
foi por sua vez abalada pela Física contemporânea,
que observa a "realidade" com olhos cada
vez menos 'realistas', cartesiano-newtonianos, e cada
vez mais zen-budistas. (Os papos do Capra podem até
ser exagerados, sei lá, mas certamente não
são disparates).
Não sei se Winnicott estava consciente de que
o 'espaço transicional' - tudo aquilo que não
é nem sonho nem pedra, e no qual inscreve-se
o total da experiência propriamente humana,
no sentido social da palavra, 'batia' com essas novas
formulações dos físicos a respeito
da 'imaterialidade da matéria' e da indistinção
radical entre observador e observado, entre causa
e efeito, entre agora, antes e depois. A atemporalidade
e a não-contradição do inconsciente,
típicos até então apenas do inconsciente
com seu 'princípio do prazer', passaram do
porão à sala de visitas, e tornaram-se
respeitáveis presenças na mais sisuda
assembléia de sábios. O fato é
que, lendo esse seu trabalho, onde ele fala principalmente
de 'cultura' no sentido estético da palavra
(artes, etc.) mas deixa claro que a coisa não
fica só nisso, (e eu a estendo para o resto
da experiência humana), surge à nossa
frente uma clareza de entendimento do fenômeno
sócio-cultural que repõe o indivíduo
propriamente dito no interior de um contexto 'transicional',
onde uma das metades vem de fora, na forma da assim
chamada 'cultura', e a outra vem de 'dentro', sob
o nome de 'criatividade', desaparecendo assim o velho
mito da dicotomia entre o 'interno' e o 'externo',
entre o 'subjetivo' e o 'objetivo'.
É essa forma singular pela qual cada um acolhe
o seu quinhão de 'cultura' e a transforma quase
sempre numa cultura própria que gera a individualidade.
O conceito de espaço transicional apaga as
fronteiras existentes entre os antigos compartimentos
'objetivo' e 'subjetivo' (embora não os torne
uma única e mesma coisa). Nesse território
novo, com o qual Winnicott renomeia a área
humana-social da nossa vida, haveria dois habitantes
permanentes: a Religião, e a Arte. E ele afirma,
para dar maior consistência às suas alegações:
'Nessas duas regiões, o homem volta e meia
pára e descansa um pouco de sua eterna tarefa
de discernir entre a 'realidade interna' e a 'realidade
compartilhada'.' ("Natureza Humana", pág.
127)
É claro que existem as 'realidades compartilhadas',
conforme as denomina Winnicott, de modo que a ninguém
cabe contestar a validade de um contrato assinado,
com firma reconhecida, nem questionar a diferença
entre um documento físico desse tipo, onde
o 'sonho' de duas ou mais pessoas é transformado
em 'realidade', e o papo inteiramente onírico
e descompromissado de dois amigos bêbados jogando
conversa fora num botequim da esquina. Para tanto,
a sociedade constrói todo um edifício
de leis e regulamentos, e 'combina' que um homem vestido
do que passamos a chamar 'uniforme de policial', com
carteira de identificação reconhecida
por quem a expediu, terá o direito de bater
com seu bastão de madeira (ou borracha, tanto
faz, desde que seja bem 'real'...) na cabeça
daquele que se negar a reconhecer essa sutilíssima
diferença.
Temos, portanto, que reconhecer essa diferença,
mas não devemos perder a perspectiva e imaginar
que o contrato é mais 'real' que o papo dos
dois amigos. Não. De 'real' aí entra
apenas o cassetete do guarda, ou a grade do xadrez,
ou o rombo na nossa conta depois de paga a multa.
O resto é, haja o que houver, convenção
social, e se somos melhores cidadãos quando
reconhecemos as decisões coletivas, tornamo-nos
um perigo para a sociedade quando levamos longe demais
a 'brincadeira' - de que certas facetas da cultura
são 'realmente' reais, enquanto outras não
passam de 'delírios'.
É nesse espaço que as coisas se passam,
entre os homens. E ele é transicional porque
se situa entre, é uma transição
entre a fantasia e a pedra. (A pedra, por sua vez,
só é pedra para o olhar humano. Do ponto
de vista do trator, nem toda pedra merece esse nome,
e do ponto de vista da dinamite, ou do raio laser,
nenhuma. Mas enquanto as pedras forem mais duras que
as nossas cabeças, tenderemos a chamá-las
de 'pedras', independente do que dizem os físicos
ou os geólogos.)
O espaço transicional tem, porém, uma
característica muito especial: ele não
existe in natura. Ele próprio é uma
criação, uma criação do
homem, muito parecido com o que Bachelard chama de
logosfera, uma bela expressão que designa o
âmbito em que vigem as palavras. 'Por de Sol',
por exemplo, é um fenômeno que ocorre
exclusivamente na cabeça de quem o nomeia.
No entanto, quando esse alguém o nomeia, e
outro, que olhava para outro lado, por acaso o vê,
saem ambos dizendo para quem se interessar: 'Puxa,
vimos um por-de-sol tão lindo...' E os outros
acreditarão que, de fato, esses dois viram
alguma coisa que estava lá para ser vista.
Pois essa é a logosfera, a esfera em que as
palavras voam de uma orelha a outra, dizendo coisas.
Esse é justamente o espaço transicional,
creio eu. Mas esse espaço, diz Winnicott, só
existe se e quando o homem - o indivíduo -
o cria. É, portanto, um espaço potencial,
que só passa a ser atual após ter sido
criado por um indivíduo. E essa criação
se dá, novamente, entre, e agora entre o bebê
e sua mãe.
Winnicott descreve o processo: No momento em que o
bebê, que está junto à mãe,
e que (como verificamos tantas vezes, ao longo das
psicoterapias) percebe a mãe como parte dele,
como algo criado por ele, a ponto de não lhe
fazer sentido a idéia de que ela existe em
si mesma, quando pois esse bebê faz um gesto
qualquer ou percebe alguma coisa e lhe dá sentido,
registra-a, tem uma experiência, nesse momento
essa experiência ao mesmo cria o espaço
potencial e nele se inscreve. E é por inscrever-se
que ela o cria. Exemplo: Quando mergulhamos a mão
fechada na água ensaboada, e depois a abrimos,
entre os dedos que antes estavam juntos, e que agora
se separam, surge uma película de sabão.
A película surge porque as características
químicas do sabão dissolvido em água
permitem que as moléculas permaneçam
presas uma à outra, formando redes extensas,
mas muito finas. Mas é a abertura dos dedos
que cria a película, que antes existia só
em potência.
Assim ocorre também com esse espaço
potencial. Ele é criado no momento mesmo em
que a criança tem uma experiência que
nele virá a inscrever-se. E a segunda experiência
o ampliará, e assim por diante, e com isso
o bebê vai empilhando experiências entre
ele e a mãe. E com isso ele se separa dela,
pois esse espaço, ao surgir, cria uma distância
entre ambos. Entendamos bem: Ao produzir - e assim
ter - uma experiência pessoal, o bebê
cria com isso um espaço entre ele e a mãe,
e assim constrói uma distância, uma distância
que o separa da mãe. Ele, então, constrói
a si mesmo ao mesmo tempo que constrói a distância
entre ele e a mãe. E assim, diz Winnicott,
o bebê vai se separando da mãe, interpondo
experiências pessoais entre ele e a mãe,
mas na medida em que essas experiências começam
em seu mundo interno e terminam ali onde o seu mundo
interno abarca a própria mãe, esse espaço
potencial que vai surgindo, vai sendo construído,
ao mesmo tempo É A LIGAÇÃO ENTRE
O BEBÊ E A MÃE.
O famoso livro "Simbiose e Ambiguidade",
de Bleger, uma das grandes obras da escola kleiniana,
fala da incapacidade do indivíduo não
amadurecido de viver a dúvida, a incerteza,
a escorregadia probabilidade. Só com o amadurecimento,
isto é, a separação, é
que a ambiguidade, a flexibilidade, a incerteza podem
tornar-se toleráveis. Esta foi, sem dúvida,
uma grande contribuição de Bleger, mas
agora surge, com essa noção winnicottiana
do espaço transicional, uma explicação
teórica talvez mais apropriada para o fenômeno
descrito por Bleger: Pois no espaço transicional
O PARADOXO É A LEI, não é uma
exceção ou um 'caso'. A ambiguidade
de que fala Bleger é justamente a ambiguidade
do paradoxo, a capacidade de conviver com o 'talvez',
a capacidade de existir sem o poder de controlar todas
as variáveis. E o paradoxo só é
possível no interior do espaço transicional,
criado pela atualização do espaço
potencial. E esse próprio espaço é
por sua vez paradoxal, pois é o espaço
que simultaneamente liga E separa.
Tudo isto vem para explicar o conceito de 'espaço
transicional', esse espaço onde, na verdade,
passamos toda a nossa vida. (Se, por um lado, a fantasia
inconsciente não faz parte do espaço
transicional, sendo um espaço eminentemente
privado, o fato é que ela tampouco pode ser
chamada de 'pessoal', já que a própria
pessoa tem tão pouco acesso a ela quanto os
outros, e às vezes até menos, quando
pensamos no caso do terapeuta.) E vem para tornar
mais legítimas ainda (se é que precisava)
essas duas idéias winnicottianas tão
utilizadas na musicoterapia, mas a meu ver mais conhecidas
por sua eficácia que por sua origem: as idéias
de regressão e da criação de
um espaço apropriado para que a mesma ocorra.
Aqui entra (de novo) a música, como instrumento
de trabalho. Como psicanalista, eu também uso
música em meu trabalho, e gostaria de explicar
o que digo, pois não é algo óbvio.
Quando um paciente entra em meu consultório,
e depois de cumprimentá-lo eu fico quieto e
não digo nada até ele começar
a falar (com algumas exceções, em situações
muito especiais), não tenho dúvida alguma
de que esse meu silêncio, sendo inteiramente
voluntário e conscientemente produzido, é
'música'. Música num sentido primário
da palavra, um conjunto (embora vazio) de sons coerentes
entre si. É um silêncio ao mesmo tempo
artificial (na medida em que eu evito rompê-lo)
e natural (na medida em que nenhum som é artificialmente
'produzido'), e a tradição psicanalítica
atribui a ele grande importância. Antigamente,
justificava-se a produção desse silêncio
como forma de criar um ambiente 'impassível',
'não falsamente acolhedor', diferente da situação
social 'normal', criando uma situação
atípica à qual o paciente teria que
reagir com aquilo que mais verdadeiramente o caracterizava.
Era esta a forma clássica de induzir a 'neurose
de transferência'. Atualmente, esse silêncio
é visto como a criação de um
ambiente facilitador, como dizia Winnicott, capaz
de permitir ao paciente 'ouvir' a si mesmo de forma
mais direta, e comunicar-se com o terapeuta a partir
de um nível interno mais verdadeiro, ainda
que nem todos os pacientes consigam agir desta maneira,
tornando-se às vezes necessário 'ajudá-lo'
um pouco.
Outro aspecto 'musical' no meu trabalho consiste em
falar com cada paciente numa linguagem que a mim parece
'afinada' com a sua. Não digo sempre o que
penso na minha língua, como se o psicanalista
fosse uma espécie de médico que a cada
paciente receita o remédio apropriado, mas
os nomes das doenças e dos remédios
são sempre os mesmos, independente do doente
e da doença. A meu ver, cada paciente vem me
ver em busca de si próprio, não de mim,
e eu é que devo adaptar-me a ele, não
ele a mim. Sigo, pois, o ensinamento do Jazz, criando
sempre um acompanhamento apropriado para a melodia
tocada pelo paciente, em vez de seguir o caminho da
música clássica, onde há pautas
e regras escritas, e onde aquele que 'desafina' deve
aprender a 'tocar direito'. Mas a música propriamente
dita não faz parte de meus instrumentos de
trabalho, ao menos não por enquanto. Diz uma
musicoterapeuta amiga minha que um dia eu chego lá.
Por enquanto, ainda não cheguei.
E quanto à música propriamente dita,
depois de tudo que falei de Winnicott, creio que as
reflexões a seguir se tornarão evidentes
por si mesmas.
A música em si, essa sequência de estímulos
sonoros que, por lhe atribuirmos valor estético
(se bem que nem todos concordem quanto a isso, em
todos os casos) chamamos por esse nome, é um
dos habitantes privilegiados do espaço transicional.
Por alguma razão (Chomsky explica?) o cérebro
do bicho homem tem uma vocação para
a música, assim como para a linguagem. Outros
bichos também a apreciam, ainda que não
tenham tanta facilidade em apreciar a linguagem. Há
algo nessas sequências de sons que os estudiosos
estudados por vocês certamente analisam bem
melhor do que eu. O que quero, no entanto, dizer a
vocês enquanto psicanalista é que a música
é um dos elementos de maior penetração
nesse que Winnicott chama da espaço transicional.
Ou seja, a música é um dos elementos
que mais fundo penetra nesse espaço, que mais
perto chega do espaço pré- transicional,
onde se localizam as fantasias mais internas e mais
pessoais do indivíduo. Talvez porque, sendo
esta uma das mais antigas descobertas do homem sobre
a psicologia do bebê, é ainda no útero
de sua mãe, e portanto inteiramente fundido
a ela, que o bebê inicia a sua aprendizagem
musical. Que a voz gravada da mãe acalma bebês
aflitos é sabido. Que a voz da mãe cantando
uma canção de ninar é o melhor
remédio contra a aflição infantil
também é sabido. Portanto...
Sendo uma forma de comunicação, e não
só um ornamento sonoro - já que não
se trata de 'barulho' - e sendo uma comunicação
não verbal, a música se presta lindamente
para penetrar sorrateiramente (isto é, sem
dor) nas defesas mais primitivas do paciente, buscando
estabelecer contato com o ser que se esconde lá
dentro, e que é mais primitivo ainda. Aqui
não se trata de estimular, mas bem ao contrário,
de tranquilizar, de pacificar. Penso numa 'Sonata
ao Luar' de Beethoven (quando muitíssimo bem
tocada), ou num daqueles belíssimos 'poemas
sem palavras' do Fregtman, para exemplificar o que
quero dizer com 'pacificar'. É óbvia
a associação de certas melodias (no
estilo 'largo' ou 'adagio molto') com os sons primordiais
do interior do corpo da mãe, principalmente
de sua voz como deve soar no interior do líquido
amniótico. Certos ritmos e notas muito solenes
com certeza criam um ambiente mental tranquilizador,
na medida em que levam a pessoa a sintonizar com algo
que, por sua lentidão, relaxa os ritmos internos
do ouvinte e, no melhor dos casos, reduz sua tensão.
Obviamente, recria-se nesses momentos o clima do colo
materno, e ressurge um sentimento de proteção
e amparo - por oposição ao clima persecutório
da separação e do desamparo.
Penso também na música como um 'objeto
transicional' por excelência, por um lado o
grande 'objeto transicional' da pré-história
mais remota, pois nada impede de imaginar que, antes
de terem sido inventadas palavras suficientes para
permitir uma conversação, as pessoas
naquelas eras de muito medo e pouca paz ('A Guerra
do Fogo', lembram?) talvez se comunicassem, quando
juntas, tartamudeando alguns sons 'musicais'. Nada
impede de imaginar, pois, que a música (o canto)
antecede a invenção, se não da
palavra, ao menos da conversa digna desse nome. A
profissão de 'contador de histórias'
ao redor do fogo talvez seja posterior à profissão
de 'cantador de melodias' na escuridão da caverna.
A música é, ao mesmo tempo, o grande
objeto transicional de gente da mais sofisticada intelectualidade
moderna, e não penso, obviamente, nos músicos
profissionais, mas em gente como Albert Einstein,
Pablo Picasso, José Saramago e Ingmar Bergman,
e tantos políticos e cientistas, e também
industriais e artistas de outras áreas, e até
mesmo, hum, eu. Isto para não falar do povo
como um todo, de todos os povos, que, se prestarmos
atenção, vivem cantando ou 'tocando'
em pensamento alguma melodia. Ou seja: a música
vem de fora, muitas vezes, mas ao reproduzi-la, e
também ao ouví-la, nós na verdade
a 'criamos', e não apenas 're-criamos'. O músico
profissional é que 're-cria', pois aprende
e exercita-se e está sempre consciente de que
há um 'verdadeiro' autor do que ele está
tocando. Nós, reles amantes da música,
quando cantamos ou 'tocamos' uma melodia mentalmente,
ou no instrumento, e mesmo no aparelho de som, vivenciamos
claramente o prazer de inventá-la de novo,
e é precisamente esta a definição
winnicottiana do objeto transicional: algo que não
podemos definir como tendo sido encontrado, pelo simples
fato de que seu valor é dado pela experiência
de o haver inventado. (De que outra forma pode se
explicar o prazer que tanta gente (inclusive eu) tem
em gravar uma música ou uma série, ou
comprar uma fita ou disco para depois exibi-los aos
amigos como uma conquista pessoal?) E não há
melhor forma de definir a experiência musical
que esta, mesmo quando ouvimos outros tocarem ou cantarem.
Pois a música ressoa 'lá dentro', como
se estivesse sendo produzida, na verdade, ali. (Isto,
obviamente, é muito diferente de meramente
'ouvir' música.)
A música é pois, uma ponte entre o mundo
interno, do eu mais pessoal e intransferível,
e o mundo externo, onde compartilhamos a 'realidade'
com os outros. Se, para Freud, o sonho era a 'estrada
real para o inconsciente', a música é
a ponte que leva ao eu mais profundo e verdadeiro.
E não vale dizer que o sonho vem de dentro
para fora, enquanto a música vai de fora para
dentro, porque não se pode dizer com convicção
que a música realmente segue de fora para dentro:
ou uma música entra, e nesse caso ela já
está dentro, mesmo que esteja sendo ouvida
pela primeira vez, ou ela não entra, e então
nada acontece.
Utilizá-la para estabelecer contato com esse
eu interno, principalmente quando o mesmo se encontra
oculto sob as defesas do falso self, é não
só legítimo enquanto prática,
mas legitimado teoricamente pela contribuição
de Winnicott. Surgiu-me, enquanto pensava no que eu
iria dizer aqui, uma idéia por um lado engraçada,
por outro muitíssimo espantosa - ao menos para
mim: A música é o 'objeto' mais transicional
possível, depois de Deus. E cá entre
nós, na minha modesta opinião, a Ele
certamente agradaria muito essa idéia. Ou,
dito de outra forma: Segundo uma velha piada judaica,
(creio que contada por Woody Allen), foi porque Deus
percebeu que daria muito trabalho encontrar-se ao
mesmo tempo em todos os lugares para tomar conta de
todo o mundo que Ele inventou as mães. E, acrescento
eu: Foi porque mesmo as mães não podem
estar sempre em todos os lugares que Deus resolveu
aperfeiçoar a Obra um pouco mais, e criou a
música.
(1)
DWW, La Naturaleza Humana, 1993. Ed. Paidos, Buenos
Aires. Parte IV, punto 9, pág. 199.
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