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Um silêncio oportuno

por Daniel Ripesi

(Traduzido por Davy Bogomeletz)

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O seguinte ensaio e um trecho do livro "Quemar las naves - Ensayos winnicottianos", de próxima ediçao por Editorial Letra Viva, Buenos Aires.

Já se escreveu extensamente, mas quase sempre em termos negativos - no sentido moral e epistemológico do termo - sobre os movimentos que o paciente desperta no analista.(1)
Não será necessário discuti-los, mas podem induzir ao erro de pensar que "as coisas não vão bem" quando não se registra nele movimento algum.

Ou, no outro extremo, talvez se imagine que tal movimento pode ser reciclado como instrumento válido - e muitas vezes exclusivo - para considerar o que se passa com o paciente na transferência. Estaríamos, então, imersos - para valorizar a utilidade ou o preconceito da contra-transferência - num paradoxo equivalente ao que Freud formulava sobre a angústia: um "pouquinho", e temos a utilidade do sinal; "muita" (desenvolvimento), os excessos próprios da neurose...
Angústia e desejo do analista, nenhum paciente escapa a essa economia: não suportariam a sua ausência... Pontalis fala, quanto ao analista no exercício da psicanálise, de um "desapossamento de si mesmo"(2). Concordemos. No entanto, para além de toda frase idealizante, sempre que tentamos deliberadamente nos desprendermos de nós mesmos para o bem do tratamento, devemos estar preparados para assumir a conseqüência: a de sermos, involuntariamente, nós mesmos... (3)
Conhecemos, todos, a expressão: "comunicação de inconsciente a inconsciente". Mas bem sabemos que nem todo dizer do paciente é "associação livre", e que nem todo silêncio do analista é "atenção livremente flutuante"; uma coisa e outra sempre tomam os participantes de surpresa, e só em pouquíssimas ocasiões ocorrem ao mesmo tempo.
Para que o jogo analítico funcione, não apenas com base na "associação livre" - que se oferece como reasseguramento de que se está em análise - nem com base apenas nas "interpretações" - também oferecidas como reasseguramento de "estar analisando" - (apostando, poderíamos dizer, numa espécie de aliança terapêutica sustentada pela ilusão de se poder comparecer - sem atrasos e sem rodeios - a um encontro suficientemente estabelecido pela regra fundamental claramente antecipada); enfim, para que haja o "jogo analítico"(4), um e outro deveriam compartilhar um movimento que os levaria ao final a uma experiência de que ninguém suspeita: Que efeitos produz, essa experiência, no analista? Ou, de acordo com a reflexão de Jorge Rodríguez: "Que nome tem, em relação ao analista, esse movimento que, lido no paciente, consideramos como o desenvolvimento de um tratamento?" E, para que não restem dúvidas, aqui esse movimento implica transformação.
Winnicott propõe, como abertura para "O Brincar e a Realidade" (5), um agradecimento: "A meus pacientes, que pagaram para ensinar-me." Quando mergulhamos em sua obra, descobrimos de que modo pagou ele mesmo por dita aprendizagem: ao oferecer suas interpretações - e Winnicott o explicita claramente - para evidenciar mais os limites de sua compreensão que os limites de seu "saber", e também ao interpretar para restringir - conforme o caso - a própria posição de mágica onipotência nas expectativas de certos pacientes. Vemo-lo "pagar", também, quando - por imposição da transferência - admite "estar louco" diante de seu paciente (6). Enfim, quando se estabelece um diálogo peculiar entre aquele que diz sem saber, e outro que já sabe, mesmo que ainda não o perceba. Despossessões impredizíveis, desprendimentos necessários para o progresso de um tratamento que não é possível sem uma transformação mútua.
Todo analista paga com a perda não premeditada de sua onipotência: vê, um tanto surpreso, peregrinarem de sua boca interpretações que seu paciente não tanto "recebe" quanto encontra como produto de sua própria criação. Frágil economia de uma experiência, sempre em risco de que algum dos participantes arvore-se em soberano das palavras que ali circulam.
Pretendendo usar as palavras segundo as nossas sãs ambições, descobrimos que elas não param quietas, fazem das suas e nos arrastam em seu movimento.
Por um lado, alçam vôo na transferência, e ficamos esperando que, por sua própria força de atração, o paciente as recupere; por outro lado, porém, com as intervenções do analista ocorre o mesmo: elas "voltam" para nós. Quando a palavra retorna, nem um nem outro saem da experiência como imaginavam ser. Cada vez que um paciente invoca as "minhas palavras", eu as percebo irreconhecíveis. E quando sou eu que "devolvo" as que eles acabaram de pronunciar, sentem-se surpreendidos e desconfiados; temos ambos razão, são elas que deveriam distribuir-se como melhor lhes pareça. Mas esse jogo - que não é outro senão o jogo que anima a transferência - nos desconcerta a ponto de pretender o impossível: estabelecer uma ordem que busque colocar as coisas em seu lugar: "estas são as suas", "aquelas são as minhas".
As palavras voltam, cedo ou tarde, mas - devemos admiti-lo - não somos mais do que nós mesmos, na maioria dos casos - os filhos pródigos ou desencaminhados do que acabamos de dizer, ou do que estávamos para dizer, e - acima de tudo - do que jamais dissemos.
Ansiamos pela palavra exata, aquela que poderia ir portando o mais íntimo do que estamos nomeando, e nenhuma detém o movimento de atração e rechaço que alimenta esse intento: "O que há de árvore na palavra árvore?" Fazemos essa pergunta contra toda intenção de resolução erudita; enunciemo-la - e nos tempos que correm, quase como um protesto, quase a respeito da árvore frente à qual também a formularíamos. Na palavra árvore há, desde logo, um lugar onde habita a minha árvore; sem dúvida, a minha árvore não preenche inteiramente a palavra: retenho algo da minha árvore, é o meu segredo, e uma margem de silêncio que imponho à palavra árvore. Fora do meu silêncio a palavra árvore nomeia todas as árvores possíveis - de um modo unânime e harmônico - quer dizer, até que eu a pronuncio. Nesse momento perfuro a palavra árvore com um silêncio que a faz sonhar a minha árvore, ainda que sua vigília seja todas as árvores. Realmente, se a palavra "árvore" impuser sua claridade de vigília, ou se eu a violentar com a economia de meus sonhos, falar seria um pesadelo. A palavra exata, parafraseando Pontalis (7), seria aquela que, ao pronunciá-la, teríamos a ilusão de que o que alucinamos, é. (8)
Quando, ao falar, nos exigimos objetividade demasiada, "entramos" com violência no mundo e em nós mesmos, porque nossa objetividade acaba sendo uma exigência de morte da ilusão - a nossa e a dos outros.
A intenção de assumir a palavra leva a duas formas de loucura máxima: na primeira, tentaríamos invocar aquela palavra que, ao dar com o nome, revele integralmente a coisa, e na outra, conseguiríamos pronunciar aquela que, ao designar, aboliria a coisa. De fato, tais palavras estão reservadas ao domínio misterioso do divino: Só Deus fala desse modo. É somente a Sua palavra que cria - ou aniquila.
As palavras vivem, também, sua própria e inapreensível experiência: ignorantes do interesse humano em nomear as coisas, entregam-se a um diálogo com as coisas que tentamos nomear (diálogo que se desenrola a uma certa distância de nós mesmos). Nesse caso deveríamos suportar - sem nos tornarmos excessivamente loucos ou excessivamente sensatos - que desse diálogo, que as palavras empreendem com as coisas - nos alcance apenas um difuso eco. Falar, então, não seria o esforço de domínio falante facilitado pelo uso das palavras mais adequadas, mas, bem ao contrário, seria fazer um silêncio oportuno que nos permitisse ouvir as ressonâncias remotas daquele diálogo - animado ou melancólico - das palavras com o mundo. As palavras só seriam se tivéssemos conseguido estabelecer esse território, onde elas pudessem permanecer a uma certa distância.

(1) "Desperta", e não "provoca", o que nos iria inserir no registro da ação-reação.
(2) Em "O estrangeiro da transferência", de seu livro La Force D`Attraction.
(3) Pontalis, em outro contexto, caracteriza desse modo o inconsciente: "Um singular sem ser pessoal'', em "O atrativo do sonho", La Force D'Attraction, Galimard, París.

(4)Jogo, então, que requer certo esquecimento das regras.
(5) Ed. Gedisa, Bs.As., 1972.
(6) E isto sem pretender que o paciente sustente - outorgando um matiz de estratégia às suas intervenções - a sanidade do analista que, presumidamente, saberia o que diz e porque o diz. Consultar o caso clínico incluído em "Elementos masculinos y femininos separados que se encontram em homens e mulheres", no livro Realidad y juego, Ed. Gedisa, 1972.
(7) Que, a bem da verdade, fala da "palavra justa", não aquela usada para aprisionar a coisa, mas a que melhor a respeita.
(8) A identidade de pensamento que exige a lógica do discurso - comenta Pontalis - trata de consumar o que perseguia em vão a lógica do desejo, a identidade de percepção." Em "Presença, entre signos, ausência", de seu livro Entre el Sueño y el Dolor, Ed. Sudamericana, Buenos Aires, 1978.


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