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Ou, no outro extremo, talvez se imagine que tal movimento
pode ser reciclado como instrumento válido - e muitas
vezes exclusivo - para considerar o que se passa com o paciente
na transferência. Estaríamos, então, imersos
- para valorizar a utilidade ou o preconceito da contra-transferência
- num paradoxo equivalente ao que Freud formulava sobre a
angústia: um "pouquinho", e temos a utilidade
do sinal; "muita" (desenvolvimento), os excessos
próprios da neurose...
Angústia e desejo do analista, nenhum paciente escapa
a essa economia: não suportariam a sua ausência...
Pontalis fala, quanto ao analista no exercício
da psicanálise, de um "desapossamento de si mesmo"(2).
Concordemos. No entanto, para além de toda frase idealizante,
sempre que tentamos deliberadamente nos desprendermos de nós
mesmos para o bem do tratamento, devemos estar preparados
para assumir a conseqüência: a de sermos, involuntariamente,
nós mesmos... (3)
Conhecemos, todos, a expressão: "comunicação
de inconsciente a inconsciente". Mas bem sabemos que
nem todo dizer do paciente é "associação
livre", e que nem todo silêncio do analista é
"atenção livremente flutuante"; uma
coisa e outra sempre tomam os participantes de surpresa, e
só em pouquíssimas ocasiões ocorrem ao
mesmo tempo.
Para que o jogo analítico funcione, não apenas
com base na "associação livre" - que
se oferece como reasseguramento de que se está em análise
- nem com base apenas nas "interpretações"
- também oferecidas como reasseguramento de "estar
analisando" - (apostando, poderíamos dizer, numa
espécie de aliança terapêutica sustentada
pela ilusão de se poder comparecer - sem atrasos e
sem rodeios - a um encontro suficientemente estabelecido pela
regra fundamental claramente antecipada); enfim, para que
haja o "jogo analítico"(4),
um e outro deveriam compartilhar um movimento que os levaria
ao final a uma experiência de que ninguém suspeita:
Que efeitos produz, essa experiência, no analista? Ou,
de acordo com a reflexão de Jorge Rodríguez:
"Que nome tem, em relação ao analista,
esse movimento que, lido no paciente, consideramos como o
desenvolvimento de um tratamento?" E, para que não
restem dúvidas, aqui esse movimento implica transformação.
Winnicott propõe, como abertura para "O Brincar
e a Realidade"
(5), um agradecimento: "A meus pacientes,
que pagaram para ensinar-me." Quando mergulhamos
em sua obra, descobrimos de que modo pagou ele mesmo por dita
aprendizagem: ao oferecer suas interpretações
- e Winnicott o explicita claramente - para evidenciar mais
os limites de sua compreensão que os limites de seu
"saber", e também ao interpretar para restringir
- conforme o caso - a própria posição
de mágica onipotência nas expectativas de certos
pacientes. Vemo-lo "pagar", também, quando
- por imposição da transferência - admite
"estar louco" diante de seu paciente
(6). Enfim, quando se estabelece um diálogo
peculiar entre aquele que diz sem saber, e outro que já
sabe, mesmo que ainda não o perceba. Despossessões
impredizíveis, desprendimentos necessários para
o progresso de um tratamento que não é possível
sem uma transformação mútua.
Todo analista paga com a perda não premeditada de sua
onipotência: vê, um tanto surpreso, peregrinarem
de sua boca interpretações que seu paciente
não tanto "recebe" quanto encontra
como produto de sua própria criação.
Frágil economia de uma experiência, sempre em
risco de que algum dos participantes arvore-se em soberano
das palavras que ali circulam.
Pretendendo usar as palavras segundo as nossas sãs
ambições, descobrimos que elas não param
quietas, fazem das suas e nos arrastam em seu movimento.
Por um lado, alçam vôo na transferência,
e ficamos esperando que, por sua própria força
de atração, o paciente as recupere; por outro
lado, porém, com as intervenções do analista
ocorre o mesmo: elas "voltam" para nós. Quando
a palavra retorna, nem um nem outro saem da experiência
como imaginavam ser. Cada vez que um paciente invoca as "minhas
palavras", eu as percebo irreconhecíveis. E quando
sou eu que "devolvo" as que eles acabaram de pronunciar,
sentem-se surpreendidos e desconfiados; temos ambos razão,
são elas que deveriam distribuir-se como melhor lhes
pareça. Mas esse jogo - que não é outro
senão o jogo que anima a transferência - nos
desconcerta a ponto de pretender o impossível: estabelecer
uma ordem que busque colocar as coisas em seu lugar: "estas
são as suas", "aquelas são as minhas".
As palavras voltam, cedo ou tarde, mas - devemos admiti-lo
- não somos mais do que nós mesmos, na maioria
dos casos - os filhos pródigos ou desencaminhados do
que acabamos de dizer, ou do que estávamos para dizer,
e - acima de tudo - do que jamais dissemos.
Ansiamos pela palavra exata, aquela que poderia ir portando
o mais íntimo do que estamos nomeando, e nenhuma detém
o movimento de atração e rechaço que
alimenta esse intento: "O que há de árvore
na palavra árvore?" Fazemos essa pergunta contra
toda intenção de resolução erudita;
enunciemo-la - e nos tempos que correm, quase como um protesto,
quase a respeito da árvore frente à qual também
a formularíamos. Na palavra árvore há,
desde logo, um lugar onde habita a minha árvore;
sem dúvida, a minha árvore não preenche
inteiramente a palavra: retenho algo da minha árvore,
é o meu segredo, e uma margem de silêncio que
imponho à palavra árvore. Fora do meu silêncio
a palavra árvore nomeia todas as árvores possíveis
- de um modo unânime e harmônico - quer dizer,
até que eu a pronuncio. Nesse momento perfuro a palavra
árvore com um silêncio que a faz sonhar a minha
árvore, ainda que sua vigília seja todas as
árvores. Realmente, se a palavra "árvore"
impuser sua claridade de vigília, ou se eu a violentar
com a economia de meus sonhos, falar seria um pesadelo. A
palavra exata, parafraseando Pontalis (7),
seria aquela que, ao pronunciá-la, teríamos
a ilusão de que o que alucinamos, é.
(8)
Quando, ao falar, nos exigimos objetividade demasiada, "entramos"
com violência no mundo e em nós mesmos, porque
nossa objetividade acaba sendo uma exigência de morte
da ilusão - a nossa e a dos outros.
A intenção de assumir a palavra leva a duas
formas de loucura máxima: na primeira, tentaríamos
invocar aquela palavra que, ao dar com o nome, revele integralmente
a coisa, e na outra, conseguiríamos pronunciar aquela
que, ao designar, aboliria a coisa. De fato, tais palavras
estão reservadas ao domínio misterioso do divino:
Só Deus fala desse modo. É somente a Sua palavra
que cria - ou aniquila.
As palavras vivem, também, sua própria e inapreensível
experiência: ignorantes do interesse humano em nomear
as coisas, entregam-se a um diálogo com as coisas que
tentamos nomear (diálogo que se desenrola a uma certa
distância de nós mesmos). Nesse caso deveríamos
suportar - sem nos tornarmos excessivamente loucos ou excessivamente
sensatos - que desse diálogo, que as palavras empreendem
com as coisas - nos alcance apenas um difuso eco. Falar, então,
não seria o esforço de domínio falante
facilitado pelo uso das palavras mais adequadas, mas, bem
ao contrário, seria fazer um silêncio oportuno
que nos permitisse ouvir as ressonâncias remotas daquele
diálogo - animado ou melancólico - das palavras
com o mundo. As palavras só seriam se tivéssemos
conseguido estabelecer esse território, onde elas pudessem
permanecer a uma certa distância.
(1)
"Desperta", e não "provoca", o
que nos iria inserir no registro da ação-reação.
(2) Em "O estrangeiro da transferência",
de seu livro La Force D`Attraction.
(3) Pontalis, em outro contexto, caracteriza desse
modo o inconsciente: "Um singular sem ser pessoal'',
em "O atrativo do sonho", La Force D'Attraction,
Galimard, París.
(4)Jogo,
então, que requer certo esquecimento das regras.
(5) Ed. Gedisa, Bs.As., 1972.
(6) E isto sem pretender que o paciente sustente -
outorgando um matiz de estratégia às suas intervenções
- a sanidade do analista que, presumidamente, saberia o que
diz e porque o diz. Consultar o caso clínico incluído
em "Elementos masculinos y femininos separados que se
encontram em homens e mulheres", no livro Realidad y
juego, Ed. Gedisa, 1972.
(7) Que, a bem da verdade, fala da "palavra justa",
não aquela usada para aprisionar a coisa, mas a que
melhor a respeita.
(8) A identidade de pensamento que exige a lógica
do discurso - comenta Pontalis - trata de consumar o que perseguia
em vão a lógica do desejo, a identidade de percepção."
Em "Presença, entre signos, ausência",
de seu livro Entre el Sueño y el Dolor, Ed. Sudamericana,
Buenos Aires, 1978.
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