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Tiempo de descuento

por Doña Flor


Desde Rio de Janeiro, Doña Flor nos envía este relato que reflexiona sobre los pasos vacilantes que desandan los escalones ascendentes de un amor, con la pausa necesaria en el descanso, y la inevitable -¿última?- mirada hacia atrás. (En portugués)


Segunda feira

- Por que você nunca diz que me ama?

- Porque eu não quero ser leviano.

Silêncio.

Ela foi ao dicionário para tentar encontrar um peso mais exato à palavra, mais exato que sua perplexidade.

Era aquilo mesmo que pensava: o que ele não queria era ser irresponsável ou inconseqüente, dizendo sentir o que não sentia. Queria ser 100% sincero e transparente. Por isso só a chamava de 'linda' e dizia que a 'adorava'.

Seria só uma questão semântica?

"E por que você não me ama?", ela retrucou.

Ele disse, então, que não sabia. Nunca havia amado e agora não era diferente.

Sentiu um gosto de sombra e, sem fechar os olhos, viu tudo azedo qual leite talhado que não serviu pra nada. E ela ordenhara as vacas, abrira as cortinas e janelas... Em vão. Ele não a amava, desde sempre.


Terça-feira

A luz do dia já entrava pela janela e ela estava sozinha, com ele dormindo ao lado. Quis tanto abraçá-lo, dizer-lhe ao ouvido que não-sei-quê, qualquer coisa que fosse como amor, bom dia, tô aqui, olha, me dá um beijo, me abraça, sente meu corpo nu e quente, amor, acorda um pouquinho só, não muito, ou me leva pro seu sonho, não me deixa aqui sozinha nessa cama onde cabemos nós dois, vem pro lado de cá, amor, escuta, eu fico tão feliz ao acordar assim ao seu lado e ver você dormir feito um anjo, assim, tão entregue, na minha cama e também sinto uma vontade louca de sorver você todo, sua pele macia, seus braços fortes, eu já acordei, pois é, sou fogo, com a luz acordei, você não quer acordar também?, só um pouco, eu acordei só um pouco, me abraça que volto a dormir, me faz dormir de novo, ainda estou cansada, me ajuda, eu durmo logo, ou me faz amor, aí mesmo é que durmo logo em seguida, ah, ah, ah, ai, amor, como eu amo você, assim do meu lado, ou em cima, embaixo, ah, ah, ah. Amor?

Levantou-se e foi cuidar do dia amanhecido que lhe dava atenção.


Quarta-feira

Chocolate Candies

Verde, amarelo, laranja, azul turquesa, vermelho e marrom, contruiu caminhos de botões de chocolate pelo corpo dele.

Fez-se um ar grave de surpresa.

Sentados no sofá, foi enchendo-o de pontos coloridos trazidos da Flórida pela irmã como lembrança de viagem. E depois pescou um por um com a boca, num raro jogo de sedução entre os dois, namorados.

Não via o seu rosto, mas ouvia a sua falta de resposta. Sentiu-se inútil: tentativas, alternativas, alegria. Nada resultava.

Foi levada ao quarto, cenário de sempre para a fornicação mecânica. Um ensaio de desejo, estranho e mudo.

Um amor que não tinha aroma, nem sabor, nem amor.


Quinta-feira

Simples tecla

Lá estava o nome dele na lista de telefones do celular, o primeiro, por começar com "A". E ela estava buscando o telefone de Manuela!

"Para que aquele nome ali?", pensou rápido, melhor tirá-lo. Já não ligaria mais pra ele, nem receberia mais ligações daquele número tão familiar. Tristeza. O que estava buscando mesmo? Ah, o número de Manuela, sejamos práticas, aqui, pronto, 9605..., alô, Manú?

A amiga falava, falava e ela olhava pro visor do celular, já de volta ao número dele. Apago ou não apago? E se ele ligar um dia e eu não quiser atender? Não vou reconhecer o número, posso atender sem querer... Claro que vou reconhecer o número. Melhor apagar, é simbólico, não quero qualquer rastro, acabou, ponto. E se eu quiser ligar, um dia? Melhor apagar mesmo, ligar pra quê? Apaga logo essa merda!

Editar. Excluir. Excluir A....? Sim! Siiiiiiiiiiimmmmmmmmmmm! SIIIIMMMMM! Tá ouvindo? SIIIIIIIIMMMMMMM.

A... excluído.

Ela olha o visor embaçado, com o gosto salgado lhe penetrando o canto da boca.

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