Segunda feira
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Por que você nunca diz que me ama?
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Porque eu não quero ser leviano.
Silêncio.
Ela
foi ao dicionário para tentar encontrar um peso mais
exato à palavra, mais exato que sua perplexidade.
Era
aquilo mesmo que pensava: o que ele não queria era
ser irresponsável ou inconseqüente, dizendo
sentir o que não sentia. Queria ser 100% sincero
e transparente. Por isso só a chamava de 'linda'
e dizia que a 'adorava'.
Seria
só uma questão semântica?
"E
por que você não me ama?", ela retrucou.
Ele
disse, então, que não sabia. Nunca havia amado
e agora não era diferente.
Sentiu
um gosto de sombra e, sem fechar os olhos, viu tudo azedo
qual leite talhado que não serviu pra nada. E ela
ordenhara as vacas, abrira as cortinas e janelas... Em vão.
Ele não a amava, desde sempre.
Terça-feira
A
luz do dia já entrava pela janela e ela estava sozinha,
com ele dormindo ao lado. Quis tanto abraçá-lo,
dizer-lhe ao ouvido que não-sei-quê, qualquer
coisa que fosse como amor, bom dia, tô aqui, olha,
me dá um beijo, me abraça, sente meu corpo
nu e quente, amor, acorda um pouquinho só, não
muito, ou me leva pro seu sonho, não me deixa aqui
sozinha nessa cama onde cabemos nós dois, vem pro
lado de cá, amor, escuta, eu fico tão feliz
ao acordar assim ao seu lado e ver você dormir feito
um anjo, assim, tão entregue, na minha cama e também
sinto uma vontade louca de sorver você todo, sua pele
macia, seus braços fortes, eu já acordei,
pois é, sou fogo, com a luz acordei, você não
quer acordar também?, só um pouco, eu acordei
só um pouco, me abraça que volto a dormir,
me faz dormir de novo, ainda estou cansada, me ajuda, eu
durmo logo, ou me faz amor, aí mesmo é que
durmo logo em seguida, ah, ah, ah, ai, amor, como eu amo
você, assim do meu lado, ou em cima, embaixo, ah,
ah, ah. Amor?
Levantou-se
e foi cuidar do dia amanhecido que lhe dava atenção.
Quarta-feira
Chocolate
Candies
Verde,
amarelo, laranja, azul turquesa, vermelho e marrom, contruiu
caminhos de botões de chocolate pelo corpo dele.
Fez-se
um ar grave de surpresa.
Sentados
no sofá, foi enchendo-o de pontos coloridos trazidos
da Flórida pela irmã como lembrança
de viagem. E depois pescou um por um com a boca, num raro
jogo de sedução entre os dois, namorados.
Não
via o seu rosto, mas ouvia a sua falta de resposta. Sentiu-se
inútil: tentativas, alternativas, alegria. Nada resultava.
Foi
levada ao quarto, cenário de sempre para a fornicação
mecânica. Um ensaio de desejo, estranho e mudo.
Um
amor que não tinha aroma, nem sabor, nem amor.
Quinta-feira
Simples
tecla
Lá
estava o nome dele na lista de telefones do celular, o primeiro,
por começar com "A". E ela estava buscando
o telefone de Manuela!
"Para
que aquele nome ali?", pensou rápido, melhor
tirá-lo. Já não ligaria mais pra ele,
nem receberia mais ligações daquele número
tão familiar. Tristeza. O que estava buscando mesmo?
Ah, o número de Manuela, sejamos práticas,
aqui, pronto, 9605..., alô, Manú?
A
amiga falava, falava e ela olhava pro visor do celular,
já de volta ao número dele. Apago ou não
apago? E se ele ligar um dia e eu não quiser atender?
Não vou reconhecer o número, posso atender
sem querer... Claro que vou reconhecer o número.
Melhor apagar, é simbólico, não quero
qualquer rastro, acabou, ponto. E se eu quiser ligar, um
dia? Melhor apagar mesmo, ligar pra quê? Apaga logo
essa merda!
Editar.
Excluir. Excluir A....? Sim! Siiiiiiiiiiimmmmmmmmmmm! SIIIIMMMMM!
Tá ouvindo? SIIIIIIIIMMMMMMM.
A...
excluído.
Ela
olha o visor embaçado, com o gosto salgado lhe penetrando
o canto da boca.