Eu
ia falar do vento. Sem ser meteorologista, não é
comum inventar um texto sobre o vento. Pensei, então,
em falar do mar. Sem ser oceanógrafo, é pouco
provável que alguém ousaria publicá-lo.
Não seria levado a sério. Do amor? Banal,
se não for a descobrir entre 'restos humanos'!
E assim eu volto ao mesmo vento, sem ser meteorologista.
E insisto nessa tecla, sem ser músico.
Não sei tocar esse instrumento. O vento contorna
as notas para tocar sem dedos, e eu o que faço com
ele, não sendo previsor do tempo, para esperar o
que sopra? Desisto de escrever sobre a imensidão
que lhe dá espaço. Me transporto. ...Notas
que lembram de que todos têm uma alma para mergulhar,
mesmo o mais raso e distraído dos leitores. Mesmo
aqui no jornal, ou na tela do computador, oprimido pelo
cotidiano, quando espera notícias que não
sabe quais. Se resta o tudo-muito-vago depois da leitura
de um jornal, imagina se for poesia. As páginas caem
de sua mão. Estremece de um vazio diante da tela,
de ter se esquecido de suas mãos, na borda da folha
ou sobre o teclado. No entanto, conecta-se. Com o quê,
quando lê poesia? Penso, então, no passado.
Passado relativo, quer dizer, depende do presente em que
ando, que a data do alto da página do jornal não
informa, pois é absolutamente pessoal. E vem: O
que eu vi ontem não é distância. Mais
longe se afasta quando recordo. E ao me lembrar de ontem,
a um mais longe ainda se dista. Tão mais longe se
posta, quando novamente rememoro. E nesse mergulho, o tempo
aí mesmo é que se some. Mesmo o mais obscuro
feito, pode se tornar obra clara. Gema o presente! Pronto,
acabamos ancorando em versos que nos tiram do cotidiano
que vai de doido a cartesiano. Seriam prenúncio?
Pessoal, coletivo? Estariam se referindo a que tudo não
passa de um ovo? Tudo assim a um só tempo, o que
é passado para um ovo? E a casca? E o futuro? É
o furo?
Bem, se o leitor não costuma ler nesta coluna textos
assim sem régua, lembra simplesmente por um momento
de que hoje é o Dia da Poesia. Tão
esquecida na infância dos jornais, pelas redesenhadas
revistas, livrarias, editoras, no entanto é ela que
pinta prosa neste espaço, em meio ao sangue da coluna
policial, aos ardis da coluna política e o desassossego
das disputas, entre derrota e pênaltes, na coluna
de esportes. Na maioria das livrarias, encontra-se na parte
mais embaixo das estantes mais ao fundo-escuro da última
divisória, confiram. A descobrir. Ademais, parece
mesmo que o mundo nem carece mais da Poesia, afastado dela
por uma cortina de clichês que conduzem apenas ao
mecanismo das trocas, não às descobertas.
Talvez, porque ela leve ao fundo, ao mais abaixo, quase
ao chão, aos nascimentos e às mortes. Por
pouco não é mesmo o pó que se mistura
com quem vai fundo, para poder alçar novas formas
de vôo? Quem sabe?
Vou seguindo, pra ver por onde o texto me conduz e, com
a expectativa de poeta, como se acabará, mas não
esquecendo de que quero escrever sobre O "Dia da Poesia".
Como se fosse uma encomenda. Coisa que não é
da poesia: como o desejo, imprevisível, irrompe ou
não é poesia. Como quem segue pelas estantes
buscando uma sintonia com algo que o toque, sem a interferência
opressiva do raciocínio. Ainda que sejam apenas palavras,
em geral juntinhas, em linhas que terminam sem pontos. Ora
com rimas ora com letras cortadas. Contadas seguindo uma
estranha estrutura matemática. Ora apenas uma frase,
perdida na margem. Mas Poesia. Sem o compromisso do texto
científico, nem a objetividade de uma notícia.
Não leva a nada. Não dá lucro. Nada
do que seja moeda corrente nos templos do capital. Abandono.
Descuido de viver, em palavras, sem o conforto da técnica
ou da segura aridez da certeza destilada pela razão.
Crise da Poesia? Sim. Não, crise do homem.
Dia da Poesia. Quem diria? Chego em casa, num final de tarde
de 15 de março de 2004, abro os e-mails. Entre eles,
um, que se anuncia apenas como Metalúrgica@.... Eis
que, em meio a ferro e a fogo, um conhecido meu, que nunca
antes me escrevera, nem tinha motivos talvez para me escrever,
dono de uma fábrica de roletas para entrada de bancos,
esquadrias e cercas de ferro, dizendo do quanto gostou do
livro que o enviara, e de "como faz falta a poesia
nos nossos dias! Como damos pouco tempo a ela! Te escrevo
porque hoje é o Dia da Poesia!", conclui de
súbito e com estranho entusiasmo. Mesmo sendo poeta,
nunca tinha pensado de que haveria esse dia. Muito menos,
que tal informação viesse das forjas de uma
metalúrgica. Acreditei, ainda que oficialmente nada
é oficial para a poesia, nem seu dia, nem a hora
que pinta, nem a hora oficial pra sua leitura. Fez o sentido,
atestado pelo próprio espanto, longe das certezas
e da razão e que deu agora neste texto. Pois, das
profundezas de um distraído final de tarde, talvez
tivesse vindo o mais duro martelo sobre o que nos oprime,
cuja libertação das grades só nos damos
conta se mergulharmos no fundo de nós mesmos - para
talvez descobrir o pó deste Nada que nos constitui.
(*)
Luciano Fialkowski é psicanalista e poeta, autor
de A Revolução Silenciosa (AGE) e Viagem
dos Homens - entre vento e vela (WSEditor)