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UM DEDO DE PROSA
PAR'O DIA DA POESIA
*


Por Luciano Fialkowsky

 

Eu ia falar do vento. Sem ser meteorologista, não é comum inventar um texto sobre o vento. Pensei, então, em falar do mar. Sem ser oceanógrafo, é pouco provável que alguém ousaria publicá-lo. Não seria levado a sério. Do amor? Banal, se não for a descobrir entre 'restos humanos'!
E assim eu volto ao mesmo vento, sem ser meteorologista. E insisto nessa tecla, sem ser músico.
Não sei tocar esse instrumento. O vento contorna as notas para tocar sem dedos, e eu o que faço com ele, não sendo previsor do tempo, para esperar o que sopra? Desisto de escrever sobre a imensidão que lhe dá espaço. Me transporto. ...Notas que lembram de que todos têm uma alma para mergulhar, mesmo o mais raso e distraído dos leitores. Mesmo aqui no jornal, ou na tela do computador, oprimido pelo cotidiano, quando espera notícias que não sabe quais. Se resta o tudo-muito-vago depois da leitura de um jornal, imagina se for poesia. As páginas caem de sua mão. Estremece de um vazio diante da tela, de ter se esquecido de suas mãos, na borda da folha ou sobre o teclado. No entanto, conecta-se. Com o quê, quando lê poesia? Penso, então, no passado. Passado relativo, quer dizer, depende do presente em que ando, que a data do alto da página do jornal não informa, pois é absolutamente pessoal. E vem: O que eu vi ontem não é distância. Mais longe se afasta quando recordo. E ao me lembrar de ontem, a um mais longe ainda se dista. Tão mais longe se posta, quando novamente rememoro. E nesse mergulho, o tempo aí mesmo é que se some. Mesmo o mais obscuro feito, pode se tornar obra clara. Gema o presente! Pronto, acabamos ancorando em versos que nos tiram do cotidiano que vai de doido a cartesiano. Seriam prenúncio? Pessoal, coletivo? Estariam se referindo a que tudo não passa de um ovo? Tudo assim a um só tempo, o que é passado para um ovo? E a casca? E o futuro? É o furo?
Bem, se o leitor não costuma ler nesta coluna textos assim sem régua, lembra simplesmente por um momento de que hoje é o Dia da Poesia. Tão esquecida na infância dos jornais, pelas redesenhadas revistas, livrarias, editoras, no entanto é ela que pinta prosa neste espaço, em meio ao sangue da coluna policial, aos ardis da coluna política e o desassossego das disputas, entre derrota e pênaltes, na coluna de esportes. Na maioria das livrarias, encontra-se na parte mais embaixo das estantes mais ao fundo-escuro da última divisória, confiram. A descobrir. Ademais, parece mesmo que o mundo nem carece mais da Poesia, afastado dela por uma cortina de clichês que conduzem apenas ao mecanismo das trocas, não às descobertas. Talvez, porque ela leve ao fundo, ao mais abaixo, quase ao chão, aos nascimentos e às mortes. Por pouco não é mesmo o pó que se mistura com quem vai fundo, para poder alçar novas formas de vôo? Quem sabe?
Vou seguindo, pra ver por onde o texto me conduz e, com a expectativa de poeta, como se acabará, mas não esquecendo de que quero escrever sobre O "Dia da Poesia". Como se fosse uma encomenda. Coisa que não é da poesia: como o desejo, imprevisível, irrompe ou não é poesia. Como quem segue pelas estantes buscando uma sintonia com algo que o toque, sem a interferência opressiva do raciocínio. Ainda que sejam apenas palavras, em geral juntinhas, em linhas que terminam sem pontos. Ora com rimas ora com letras cortadas. Contadas seguindo uma estranha estrutura matemática. Ora apenas uma frase, perdida na margem. Mas Poesia. Sem o compromisso do texto científico, nem a objetividade de uma notícia. Não leva a nada. Não dá lucro. Nada do que seja moeda corrente nos templos do capital. Abandono. Descuido de viver, em palavras, sem o conforto da técnica ou da segura aridez da certeza destilada pela razão. Crise da Poesia? Sim. Não, crise do homem.
Dia da Poesia. Quem diria? Chego em casa, num final de tarde de 15 de março de 2004, abro os e-mails. Entre eles, um, que se anuncia apenas como Metalúrgica@.... Eis que, em meio a ferro e a fogo, um conhecido meu, que nunca antes me escrevera, nem tinha motivos talvez para me escrever, dono de uma fábrica de roletas para entrada de bancos, esquadrias e cercas de ferro, dizendo do quanto gostou do livro que o enviara, e de "como faz falta a poesia nos nossos dias! Como damos pouco tempo a ela! Te escrevo porque hoje é o Dia da Poesia!", conclui de súbito e com estranho entusiasmo. Mesmo sendo poeta, nunca tinha pensado de que haveria esse dia. Muito menos, que tal informação viesse das forjas de uma metalúrgica. Acreditei, ainda que oficialmente nada é oficial para a poesia, nem seu dia, nem a hora que pinta, nem a hora oficial pra sua leitura. Fez o sentido, atestado pelo próprio espanto, longe das certezas e da razão e que deu agora neste texto. Pois, das profundezas de um distraído final de tarde, talvez tivesse vindo o mais duro martelo sobre o que nos oprime, cuja libertação das grades só nos damos conta se mergulharmos no fundo de nós mesmos - para talvez descobrir o pó deste Nada que nos constitui.

(*) Luciano Fialkowski é psicanalista e poeta, autor de A Revolução Silenciosa (AGE) e Viagem dos Homens - entre vento e vela (WSEditor)

 

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