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O caos

por Doña Flor


O sonho, aquele de antes, tinha acabado - e agora? O que fazer com as sobras de um sonho? Ele não sabia.


Penso no castelo que ele construiu cuidadosamente, tijolo por tijolo, e que agora ruía, parede por parede, como dominós empilhados que derrubam uns aos outros, violentamente - e não sobra nada, a não ser as peças espalhadas no chão, feito entulho, feito fuligem, feito mortas.

No único vão do castelo que sobrava intacto, amontoavam-se todas as coisas do sonho de outro dia: pareciam demais agora, ali, empilhadas, em desuso. Mesmo imóveis e mudas, elas gritavam que tinha acabado, o sonho, aquele de antes, tinha acabado - e agora? O que fazer com as sobras de um sonho? Ele não sabia.

E em meio a todas as coisas que sobraram, estava ele, impávido, erguido, assombrado. Corria de um lado pro outro, peito arfante, olhos úmidos, punhos cerrados: corria e gritava que ninguém se aproximasse. Ele mesmo resgataria os restos, ele mesmo havia erguido os muros de proteção que agora implodiam em estrondos - mas ele não queria que ninguém ouvisse.

E ela gravitava ao redor, silenciosa, tentando não aumentar o caos - embora já estivesse misturada a ele, irreversivelmente...

 

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