>> IR AL ALTILLO
El barrio


PRINCIPAL
LA SALA DE ESTAR
EL ESTUDIO
EL PATIO DE ATRAS
LA COCINA
EL BARRIO
 
Descargar archivo

 

NOIR


Por Marcelo Da Luz Natel


Saí do apartamento com raiva. Raiva de ti e de mim mesmo. Pela decepção.
A roupa provocativa e algo vulgar me caía bem. O perfume que escolhi para nós era agora corrosivo estandarte da minha imbecilidade. Antes de ligar pro teu número 5000 vezes e amaldiçoar o aparelho, o sistema telefônico celular, a cidade, o serviço de informações e todos os demais habitantes do planeta Terra..., tomei banho, fiz a barba, perfumei o peito, a nuca e a virilha. Em cada gesto uma afronta à tua existência.
Gritei sob o chuveiro; com a toalha esfregada ao sexo e às coxas; no corredor e na sacada, gritei : MERDA!!!
Os passos do coturno na calçada molhada deram-me enfim um prazer mórbido da sujeira que seria a punição e alegria masoquista, bastante adequadas.
Pois bem, estes passos me levaram até à praia e, na calçada semi deserta, senti o frio do outono e da cidade despida de barulho, exilada aos velhos e aos cachorros lanudos dos velhos. O cheiro dos velhinhos, e dos cachorros molhados, na noite.
Achei tudo muito apropriado.
Atravessei a rua, quiosques fechados, o vento batia no mar, o mar resignado espancava a murada de pedra. No céu, única nuvem baixa e densa tingida pelo âmbar da cidade-fantasma, à beira-mar.
Lembrei-me de escrever, mais tarde, nossa história. Com sangue talvez.
Cruzo com poucas pessoas, meus olhos turvam-se. O vento, a maresia e uma mais que oportuna sensação de inutilidade me cobraram lágrimas.
Antes que a primeira caísse nos joelhos vejo uma figura parecida com a tua. Desvio o olhar.
Dou com um carro que em tudo me lembra o teu, apresso o passo. Desvio. Volto a cabeça.
A visão torna-se mais clara. Teu riso parece franco e abundante. Hesito à aproximação. Tua risada me engole. Ficaram pra trás os gritos sob o chuveiro, a toalha no chão e as horas perdidas no telefone. Nunca saberei o motivo.


A noite passou e acordamos. Tudo acontece em harmonia espontânea, celebramos a vida.
Deve ser o tal Amor. Aquilo que sinto. Que és para mim. Que sinto em você. Dentro de mim e à nossa volta. Algo que se derrama generoso e fácil como água de chuva. Aquilo que anseio também, seja eu para você. Da tua maneira, sob tua ótica. Pois se todos os suores trocados são essência legítima de nossos atos. Se todas as insistentes viagens, sob todas as velocidades, realizadas nas estradas dos ombros e da epiderme, deixam-nos marcas queridas e dores cúmplices do desejo. Se os gestos e gostos provados e trocados são temperos a se combinarem em culinária tão rara.
Deve ser o Amor.
Ou qualquer outro nome ou signo que este assuma.
Abençoem-nos todos os orixás e os santos católicos.
Ou nos roguem pragas.
Ou sejamos, pois ignorados.
Porque há poucos minutos, juntos, transcendemos a vida, como deuses.

" ...teu corpo, conforto. Afronta meus limites.
O Bem e o Mal. O Certo e o Errado.
Escorrem pelo rio que percorre tua forma.
São tantas colinas serenas, tua geografia.
Tão sábia a melodia do teu corpo, que poderia dela se dizer - é música tua respiração.
E a minha? A minha não. È surpresa e ar rarefeito. É soluço de felicidade.
As horas valem toda a vida. Todas as vidas passadas e futuras."

Se eu te dissesse, meu amor, do que se passa dentro de mim quando teu olhar percorre preguiçoso o balanço do mar e se espraia sobre as ondas na areia.
Se eu te falasse dos segredos que explodem em glândulas insuspeitas, eriçam-me os pelos, e se revelam silenciosos, apenas porque tua mão descuidada roça meu braço indefeso e experimenta-lhe a temperatura.
Se eu te contasse esses mistérios diria o essencial e em voz baixa como uma receita escondida há gerações pelas matriarcas cuidadosas. Eu falaria, de repente nos minutos perdidos entre os momentos brancos da tarde de outono como se fosse um deslize, e como se tal revelação escapasse sorrateira, no tom daqueles que simulam um acidente.

Mas agora que dorme teu corpo ao meu lado, a respiração regular, os lábios semi-cerrados em sorriso distante, falo de tudo, direto ao teu coração de criança embalada no sonho.
Agora que velo teu descanso possuo os momentos inteiros a contemplar a natureza, que nas tuas formas físicas e na tranqüilidade do teu espírito, brinca com a perfeição.

A noite é longa. O mar imenso. Eu te amo.

Depois de tudo dizer, ouço de ti, de teu corpo que protege minha insônia apaixonada, a resposta marota dos que se sabem amados. "eu também" diz teu cheiro, confirma-me tua presença tranqüila e entregue.

Fecho finalmente os olhos, pressinto a manhã.
Revejo muitas portas.
Em minhas mãos repousa uma pequena chave.


Copyright © 2003/2006 - Todos los derechos reservados -