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Em viagem recente até Buenos Aires tive a feliz oportunidade de charlar com Daniel Ripesi. Conheci-o por intermédio de seu site na internet. ¿Quem poderia dizer que, agora, as máquinas aproximam as pessoas?! Incentivou-me que escrevesse algo para a Casa de Winnicott e aqui estou, um tanto perdido, procurando conhecer los rincones deste ambiente que, a sua maneira, acolhe com calor e carinho aqueles buscam nas palavras uma ferramenta para lidar neste mundo que habitamos.


Los Buenos Aires que me llegaram


Eduardo Pelliccioli


Não sou poeta. Queria sê-lo... tampouco sou um literato. Queria sê-lo também... entre ser e querer ser, restam-me as palavras - que não são restos! - com as quais me apresento e, de vez em quando, as faço acompanhar-se de alguns acordes do meu violão. Assim, vou gauderiando pelos campos dos sentidos. Como diz José Larralde:

Me gusta de vez en cuando
perderme en un bordoneo
porque bordoneando veo
que ni yo mismo me mando,
las cuerdas van hilvanando
los rumbos del pensamiento
y en el trotecito lento
de una milonga campera
van saliendo campo ajuera
lo mejor del sentimiento.

Prefaciado por Larralde, fico um pouco mais à vontade para soltar algumas coplas no espaço potencial que se cria neste momento. Digo soltar porque, talvez, estivessem presas estas coplas em algum lugar, no subsolo de mim mesmo, assim, trancafiadas, esperando pelo momento certo para que pudessem espraiar-se pelo pampa. Se é verdade que o pampa é finito, tem um fim, também é verdadeiro que encerra em si mesmo um mundo de habitantes que sonham e, sonhando, vamos para onde queremos ir. De um lado, um sonhador... que sonha, um dia, poder ter a força do payador... do outro, um espaço potencial que, convidativo, se abre para que possamos brincar com a vigília e, nela, sonharmos.
Estações
Na primavera sorrio flores,
no verão sinto calor,
no outono desconfio dos ventos
e no inverno, frio...

Dos desencontros.
Procurava desesperadamente por entre as antigas casas,
Algum sinal, algum gesto de seus antepassados...
Buscava - em tudo - um reencontro:
Nos cheiros,
Nas folhas,
Nas negras nuvens,
Nas trilhas...
Mas quê! Nada disso mais existia!
Que triste, que vontade de chorar ele sentiu...
E chorou: chorou as dores, as saudades,
Chorou pelos que amou, pelo que nunca teve. Que triste...
E os amores perdidos, que se transformaram em cheiros,
As amizades, que viraram folhas,
As velhas e sábias senhoras, que ficaram negras nuvens,
E as brincadeiras, que agora são trilhas,
Continuam lá, esperando por ele,
espreitando seus olhares,
aguardando um só sinal seu.
Desencontros.

Das estranhas criaturas
Dos piores reencontros que existem,
Dos mais temíveis, dos mais indesejáveis
São aqueles com pessoas que nunca havíamos conhecido:
Cheias de uma alegria falsa,
Repletas de sorrisos e bons-dias.
Cuidado! Por trás de cada reencontro com o Desconhecido
Se esconde uma vontade de morrer.

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