El autor nos envía su poesía con la
siguiente reflexión:
Ao escrevê-lo lembrei de meu pai, com 87 anos, que
mora numa cidade do interior, e que foi um dos primeiros
habitantes daquela cidade. Ao escrevê-lo me dei
conta que quando somos adultos e já temos filhos,
nossos pais, se ainda estão vivos, se tornam para
nós "pais comunitários", não
nos pertencem propriamente da mesma forma de quando éramos
crianças ou jovens. Quem comemora o Dia dos Pais
familiar são os netos, nossos filhos, enquanto
nós adultos refletimos sobre nossa condição
de pais. Parece que há então uma passagem
que a comunidade não percebe, de que seus velhos
habitantes são "pais comunitários",
e por isso fontes de sabedoria para as gerações
que desabrocham atrás de seus passos. Situação
que se diluiu na modernidade, principalmente no Ocidente.
Na verdade, há uma ocorrência que torna cada
idade, cada etapa da vida, seu modo próprio de
existir: as crianças brincam distraídas
e nada percebem para se dar conta dos velhos; os jovens
expõem sua beleza nas praças esquecendo
sua infância, nada indicando que percebem o velho;
os adultos cuidam de seus sonhos, e os velhos são
os que não recebem o olhar dessas gerações
que os sucedem, senão como o espírito que
os perpassa; como sendo esta a estranha condição
para ser um velho. Por isso, parece que há um movimento
necessário do próprio velho, de ir buscar
o laço com as gerações dos adultos,
dos jovens e das crianças, como um estrangeiro
em seus tempos, movimento que parece muito penoso porque
inverte a flecha de seu próprio tempo. O velho
pode ficar numa posição de espera e nada
acontecerá, porque a criança brinca, o jovem
passeia, o adulto trabalha e não percebe o velho
como a existência enquanto aquele que funda o devir
dos demais; gera o modus vivendi que perdura
nas gerações que vem vindo. Quer dizer,
ele está presente na vida da cidade, da comunidade
desta forma que também não é percebida.
Está aí, me parece, uma questão para
nós psicanalistas, acerca da participação
'espiritual' e metafórica dos velhos no tempo das
gerações, para além da pessoa do
velho, como aquele que se abandona de ter sido, podendo
se abrir para ser comunitário, quando já
passou deixando marcas que não alcança.
Foi o que me surgiu na forma do poema que lhes envio para
nossa já saudosa interlocução. Como
algo que se encontrava na sarjeta de minha rua, e que
só se moveu com a passagem do vento do poema.
HÁ CIDADE ONDE HÁ O
VELHO E A CIDADE
Há o que vê nele um velho
bloco de barro
Há o que nele encontra um Sábio
O vento da madrugada espera alçar o dia, para soprar
na manhã.
E esta manhã será o amanhã da força
maior que traz seu sopro para as gerações
de uma cidade.
O que traz em sopro é força que gira sobre
as árvores, as pessoas, sobre a cidade e sobre
os navios.
Mais e mais sobre os velhos troncos, sobre velhas carroças,
Sobre velhos homens que caminham arquejados atravessando
o dia.
Não tem o vento uma parada.
Escapa rente às casas, assovia nos telhados de
tabuinha e,
Como um forasteiro que chega à cidade, parte sem
deixar pista, nem pede pousada.
Nas estradas, a força do vento limpa os barrancos
e valetas,
Nas cidades arruma os ciscos na sarjeta das ruas. Vento.
Uma coisa tão assim sem beira nem fundo, nem fora
nem dentro.
Por isso se comparara ao espírito das coisas maiores
e dos grandes homens.
Como no Gênesis (1,2): "no começo, nada
havendo, somente o Espírito de Deus pairava sobre
as águas".
Poeta que escreveu, tomado por esse vento do espírito,
Como a força que o empurrou para a Criação
do Mundo e tudo o que nele se move.
Quando chove, bem sabemos que a chuva não são
os pingos, a chuva é o tempo que está molhando.
E o vento logo se apressa, e o que se vê são
os pingos empurrados para dentro das varandas.
Assim é o espírito nobre de homens que sopra
sobre uma cidade sua força invisível.
Às vezes, só se percebe quando já
passaram,
Deixando uma estranha força como sua sabedoria.
Que, quanto mais invisível, mais sopra; quanto
menos percebida mais move corações.
Porém, há os que estão ainda vivos
por aí.
Voam como pássaros desatentos
Com seu espírito ágil e seus passos lentos.
Distraída, a cidade flui e se renova
O curso dos rios diploma os caminhos das lavouras.
As mudas de novas plantas recobrem beiras dos mananciais
e os celeiros.
As crianças conversam e brincam desligadas.
Exuberantes os jovens inundam de beleza os olhares nas
praças e calçadas.
Os adultos põem combustível na máquina
que inventaram para seus sonhos e suam.
Mundo inquieto segurando as pontas das lonas dos acampamentos
- eis que volta o vento quando menos se espera com sua
força, porém de onde ninguém sabe.
Como a sabedoria de um velho sobre a cidade.
Sobre as gerações, as crianças, os
jovens, os adultos que suam por seus sonhos...
Há paz no horizonte, mas a espada está com
a sabedoria.
Que falqueja nos dias de criança, de jovem e de
adulto, o velho
Que agora assombra na humildade de um Espírito
Nobre.
Por isso, não cobre do velho mais que ternura
De ser a lança gasta que se recolhe para deixar
sua força agir no tempo que passa e nem se percebe.
O que o vento da vida lhe brinda cai suave como sopro
invisível sobre a cidade.
E as pessoas que a habitam talvez nem percebam que é
ventania.
Quando acabo de produzir esse escrito bloco de barro,
fico pensando:
Quem olhar com cuidado, encontrará nas entrelinhas
de sua cidade,
Parecendo velhos blocos de barro esses sábios -
feito vento que vai.