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Desde Brasil, a modo de postales de llegadas y partidas,
de un nunca llegar, de un nunca partir... con el corazón
apretado escriben: Zé estrangeiro "Fugitiva"
y Nélida Piñon "Ave de Paraíso"
Editó: Gabriela Sandes Borges de Almeida
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Fugitiva
por Zé Estrangeiro
Rua
ruim,
pego con tremor.
Afogo de angustia
Sinte-se
longue o som,
baião, baixo: perto,
rumo, rumor: tênue.
Sentido fundo.
Fico
indo, vou ando.
Tu
figura: luz.
Lembro, perdo,
Mais jà è perdida.
Vou,
querendo ficar.
E
o rumor cresce.
E o frio, e a oscuridade.
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Vou, vou, vou,
e não vou gritar,
e não sei gritar,
quero latir, explodir:
mais, mais, a mais.
E não, mais não,
Jà não mais: mais nada.
Nada, nada. Nada.
E
a rúa è vacia.
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AVE
DE PARAÍSO - Nélida
Piñon
Uma
vez por semana visitava a mulher. Para exaltar-se, dizia
comovido. Ela acreditava e o recebia com torta de chocolate
e licor de pêra, as frutas colhidas na horta. Os vizinhos
discutiam os encontros raros, mas ela o queria sempre mais.
Ele imaginando a vida difícil pedia desculpas pelo
olhar, como se lhe assegurasse de que outro modo devia amá-lo.
Comia a torta e rejeitava o resto. Ainda que ela insistisse.
É por cerimônia, ela pensava escondendo-se
em sua sombra. Chegou a preparar-lhe uma vez jantar de surpresa.
A comida cheirava, as essências apenas abandonaram
a China. Brilhavam os talheres e o aparelho comprado pensando
no dia da festa, para que ele abrisse os olhos encantados.
O homem fiscalizou apreciando. Sempre a julgara sensível
à harmonia e à graça. Uma confiança
que se instalou desde o primeiro instante, ao se conhecerem:
no bonde ela havia esquecido o dinheiro da passagem, olhara
em torno sem pedir socorro, ele pagou e disse baixinho eu
também preciso de ajuda, ela sorrira e ele segurou
sua mão, assustada ela consentira, e quando a deixou
na porta protegida prometeu voltar no dia seguinte.
Não insista, que não aceito jantar. Tão
natural, ele parecia um peixe corrigindo o mar. Ela chorou
pensando entre tantos homens Deus destinou-me o mais difícil.
Foi o único instante de fraqueza do seu amor. No
outro dia recebeu rosas e o bilhete dentro só falava:
amor. Ela riu arrependida, condenando a própria incontinência.
Não o devia ter submetido a semelhante prova, que
ele recusou herói. Na próxima visita amou-a
com fervor de apátrida e repetia baixinho seu nome.
Uma vez desapareceu três meses, sem carta, telegrama,
ou telefonema. Ela pensou agora é a minha morte.
Em torno da mesma mesa, a toalha pintada de roxo, que havia
preparado num longo dia de sábado, a cama de lençol
branco, pessoalmente ela os lavava evitando a anil em excesso,
a casa enfim que ele deixou de freqüentar sem aviso.
Percorria as ruas e a cada suspiro acrescentava:
Que é da mulher sem a história do seu amor.
Fizera o ginásio na cidade onde nasceu. Não
quis ser professora. Desde pequena desejou casar-se. Sua
única ambição. Temia o filho alheio
extraindo-lhe uma força que os da própria
carne mereciam. A mãe ainda protestou, precisavam
de dinheiro. O pai perdera o emprego, a idade fazia-se obstáculo.
Acabou ele no balcão da farmácia do padrinho.
E a mãe cosendo para fora. Enquanto ela cuidaria
dos serviços de casa, já que se recusava a
lecionar. Foi quando lhe encantou a cozinha. Mas a receita
da torta veio mais tarde: Norma apareceu galante, vestido
amarelo, pedindo ajuda para uma saia godê, modelo
surpreendido na revista do jornaleiro da esquina. Ainda
que julgasse Norma frívola, insistindo que a acompanhasse
aos bailes onde se arrumava namorado depressa, jamais a
censurou. Foi quando encontrou a outra, simples conhecida
de Norma. Do curso de datilografia, ambas pretendiam trabalhar
em firma americana. Visitaram mais tarde os Estados Unidos.
Passeios na Quinta Avenida. Norma só pensava em oficial
americano. Lamentando que já não nos visitassem
como no tempo da guerra. A outra ouvindo, quase no final
lhe perguntou:
Você não quer vir? Referia-se ao concurso para
a firma americana. Fez que não com a cabeça.
Teve vergonha de explicar que queria casar-se. Era mais
fácil e seu coração inclinava-se para
a tarefa.
Já sei, com você, só receita de torta
de chocolate, a outra sentenciou zangada.
Desta vez acedeu vibrátil. Exigindo logo a receita
com papel e lápis. E que a outra telefonasse para
a mãe confirmando os ingredientes cuja ordem dependera
da memória. Em casa, no regime de economia, não
pôde experimentar. Mas consolava-se: logo que eu tenha
amor faço-lhe uma surpresa. Acalentou sempre a esperança
de que torta de chocolate fosse sobremesa de marido. Doce
só valia para amor provar. Aquela simplicidade comovia
Norma. Anos mais tarde quando se separaram e foi perdendo
os amigos, seu destino era desistir do mundo para conservar
o amor, Norma disse-lhe com a mão no ombro e nunca
mais a viu:
Isto tinha que acontecer a você.
Ainda quis explicar, provar-lhe o engano. Mas Norma foi
andando sem olhar para trás, o jeito livre.
Quando ele voltou meses depois trouxe-lhe presentes, beijou-a
tanto no cabelo, no cheiro que dizia ele ser de céu,
fez-lhe ver a importância da viagem, não se
arrependera de ter ido pelo prazer da volta. Ela julgou
gentil o esclarecimento. Correu para a cozinha, antes que
ele a levasse para o quarto. Com ingredientes necessários
cuidou de atingir a perfeição. Não
admitia o amor sem a torta os aguardar depois, especialmente
em dia de festa.
Ele riu encantado com a extravagância, não
se via com direito a reclamar. Também ele lhe reconhecia
a liberdade. Esperou que terminasse. Veio ela então
como lhe assegurando estou pronta para a sua ausência
difícil. Era sempre discreta nas coisas do amor e
ele apreciava o recolhimento. Repudiaria um proceder atrevido
desmanchando para sempre a ilusão de a possuir como
se ainda fosse a primeira vez. Intuindo, ela escondia a
cabeça no travesseiro, as lágrimas delicadas.
Ele gritava como servo do rei Artur:
As mulheres são gratas! As mulheres são gratas!
A ciência deste aviso, ela interpretava. Recolhia
as lágrimas entregando-se com pudor. Jamais recusara
tais cenas. Às vezes se repetiam na semana seguinte.
Ele fingia não perceber que semelhante encanto ameaçava
esgotar-se. Tudo fazia para renová-lo. Por isto tanto
a amou naqueles anos. Sua fantasia também apoiava-se
na estranheza. Adotava às vezes disfarces, barba
e bigode falsos, cabeleira de outra cor. Vinha devagar dando
tempo do povo suspeitar. E não para que pensassem
que ela o enganava, mas apreciava iludir e rir em seguida.
Já ela exaltava-se submissa. Ainda sofrendo a sua
ausência. O seu amor em dias difíceis agitava-se
de tal modo que consultava a folhinha na esperança
de que fosse dia de torta de chocolate, quando ele viria
na certa. Até o fim do ano a folha registrava todos
os dias de sua visita. Jamais ela sugeriu a mudança
de data, ou maior assiduidade.
No início do mês, porém, ele chegava
mais cedo trazendo o dinheiro para as despesas da casa,
e o que mais ela precisasse. Jogava em cima da fruteira,
ainda que ali estivessem bananas, pêras, maçãs
que ela adorava imaginando-se entre a neve. Não sabia
explicar, mas comendo maçãs sentia-se moça
fina, de luvas "pécari" importadas, falando
francês e lenço de seda na cabeça. O
dinheiro ali ficava até ele sair. Após a sua
partida, ela o colocava perto do livro de missa. Ambos submetiam-se
aos ritos.
Um dia ele disse: Vamos sair depressa porque nunca fomos
ao cinema, e como quero ir ao cinema com você antes
de morrer, está na hora de cumprirmos minha vontade.
Ela chorou de alegria abraçada a ele:
Como você é meu, como você é meu!
Foram e não gostaram, ele classificando de obscenos
os episódios de amor. Ela concordou, mas sua felicidade
não a dispunha à insistência. Tomavam
sorvete e ele reclamando. Ela lambuzou o vestido, foi aí
que ele riu, gostava das suas intuições raras,
o jeito de errar nas pequenas coisas.
A mãe a visitava duas, três vezes ao ano. Ainda
cosia para fora. Perguntava discretamente por ele. Temia
irritá-la. Nunca compreendeu aquele casamento. Na
igreja ele lhe proibira o vestido de noiva alegando que
a veste nupcial devia ser apreciada só pelo noivo.
Mas s surpreendeu com o vestido branco, véu e grinalda,
quando se viram a sós no quarto, após a cerimônia.
Na primeira noite que iam desfrutar juntos ela lhe apareceu
vestida como ele sonhou e ele fechou os olhos para abri-los
depressa para ver se ela ainda estava do seu lado, a mulher
que ele queria e comovido falou no jeito que ela compreendia:
você está linda, só falta o padre nos
casar de novo. E quando no meio da noite se conheceram com
o corpo ele pediu que ela repousasse porque ele é
quem devia pendurar no armário o vestido de noiva
comprado para ela, com nenhuma outra mulher concebia tais
coisas, e ela nunca mais esqueceu.
Sempre pois que a visitava, a filha indagava pelo pai, como
iam, jamais a convidando para ficar, ela que morava longe,
viajava horas de trem para regressar à casa. Naquelas
breves visitas, a filha de nada reclamava. Parecia encantada
com o próprio estado. Nunca vira mulher mais feliz.
Tinha às vezes vontade de perguntar: a que horas
ele chega. Ou retardar a visita a fim de surpreendê-lo
quando viesse jantar. Mas a partir das quatro, a filha inquietava-se,
erguia-se seguidamente a pretexto de tolices, fingia ocupar-se,
ele tomava todo o seu tempo, garantia-lhe comovida. Na despedida
a mãe sempre repetia:
Bonita a casa de vocês.
Na semana seguinte adivinhando ele perguntava: E sua mãe,
nunca mais veio vê-la? Ela fazia cara triste, agarrada
a ele sussurrava: só tenho você no mundo. Ele
a beijava e como pedindo desculpas dizia-lhe: Quarta-feira
próxima eu volto, está contente? Ela sorria,
o rosto brilhante, os cabelos do modo que ele pedia. Os
primeiros fios brancos. A todos ele respeitava pensando:
esta é pura, esta é pura.
Um dia não resistiu. Chegou disfarçado, sua
última tentativa de confundir os vizinhos. Em cada
mão trazia uma mala. Ela sofreu antecipada aquela
longa viagem. Ajudou-o como se ele estivesse cansado, a
vida exigia demais dele. Trouxe-lhe água gelada,
lamentando não dispor de uma fonte no quintal, haveria
de enfeitá-la de pedras, talvez uma imagem. O homem
bebeu. Tirou o disfarce que jamais sofrera dela qualquer
restrição. E assumindo fingida independência
falou alto para que ela ouvisse:
Terminou o tempo da provação. Desta vez eu
vim para ficar.
A mulher escondendo a profunda alegria olhou o homem, em
seguida correu para a cozinha. Ninguém a superava
nas tortas de chocolate.
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