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As várias faces de uma rara mulher (Gentileza de Café Brasil 5 - Contra o silêncio dos bons) enviado por Heloísa Abrão y Marcelo Natel


Cecília Meireles é a poeta mais lida do Brasil, sendo ultrapassada apenas por Vinícius de Morais e Carlos Drummond de Andrade.


"Aprendi com a primavera a me deixar cortar.
E a voltar sempre inteira."



Seu talento ainda permanece um desafio para a crítica nacional. Ela partiu do pós-simbolismo e do lirismo português - e à margem do modernismo, construiu uma obra extremamente pessoal, que a faz admirada não apenas pelo público, mas também por colegas como Drummond, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. E alcançou uma meta: "acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade.

Sem pretensão filosófica ou de salvação - mas por uma contemplação poética afetuosa e participante".
A paixão pelos livros e a leitura foram o caminho natural percorrido por Cecília. Em 1919, aos 18 anos, publica seu primeiro livro de poemas: Espectros, iniciando um período de grande produção.
A partir de 1925, sua face de educadora se sobressai à da poeta. Em 1927, ela publica a prosa poética Criança, meu amor, livro que posteriormente seria indicado como leitura oficial nas escolas.
Aos 21 anos casa-se com o artista plástico português Fernando Correa Dias. Ele seria o ilustrador de futuras obras da poeta e pai de suas três filhas: Maria Elvira, Maria Matilde e a grande atriz Maria Fernanda. Segundo críticos de sua obra, Cecília Meirelles associa uma percepção sensorial a outra, produz sinestesias transfiguradoras da realidade, anunciando o nível de sua futura produção, manifestado através do desejo da união da alma humana com Deus.

"A chuva chove..."
A chuva chove mansamente...como um sono
Que tranquilize, pacifique, resserene...
A chuva chove mansamente...Que abandono!
A chuva é a música de um poema de Verlaine... E vem-me o sonho de uma véspera solene,
Em certo paço, já sem data e já sem dono...
Véspera triste como a noite, que envenene
A alma, evocando coisas líricas de outono...

A despeito de perseguições mais ou menos veladas e de dificuldades financeiras, Cecília luta ainda mais pela renovação educacional vigente. Entre junho de 1930 e janeiro de 33, dirige a Página da Educação no Diário de Notícias do Rio de Janeiro. Em seus artigos sobre política, educação e cultura, rompe tabus de uma sociedade, deixando sua marca na História Brasileira como defensora da idéia universal de democracia, numa década em que o mundo vive o período de transição das duas Grandes Guerras.

A "Página da Educação", comandada por Cecília Meireles, causa fúria no meio político nacional. Cecília refere-se ao então presidente e ditador Getúlio Vargas como "Sr. Ditador". Sustentando a idéia de um Brasil menos ufanista, coleciona inimigos e desafetos. Entre eles Alceu Amoroso Lima, crítico católico que, em 71, reconheceria na poeta "uma grande figura feminina do modernismo". Os modernistas, aliás, a consideravam uma revelação, a partir da publicação de Espectros e Baladas para El-Rei.

"Amor-perfeito"
Suas cores são as de outrora,
com muito pouca diferença:
o roxo foi-se quase embora,
o amarelo é vaga presença.
E em cada cor que se evapora
Vê-se a luz do jardim suspensa.
Veludo de divinos teares,
hoje seda seca e abolida,
preserva os vestígios solares
de que era feita a vida:
frágil coração, capilares
de circulação colorida.[...].

Em 34, com o marido, inaugura o Centro de Cultura Infantil do Pavilhão do Mourisco, no Rio. É a primeira biblioteca infantil do país. A convite do governo português, Cecília Meireles dá início a um período de viagens ao exterior. Em Lisboa e Coimbra difunde a cultura, literatura e o folclore brasileiros, em uma série de conferências. Em 1935, ao retornar ao país, novo período de sofrimento não demora a surgir, com o suicídio do marido.

"Canção"
Nunca eu tivera querido dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca, e depois no teu ouvido.
Levou somente a palavra, deixou ficar o sentido.

O sentido está guardado no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso como um beijo malogrado.
Nunca ninguém viu ninguém que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste, e eu sei que ela se vê bem...
Só se aquele mesmo vento fechou teus olhos, também...

Responsável pela educação das três filhas, Cecília Meireles amplia suas atividades profissionais. Volta a lecionar; escreve sobre folclore no jornal A Manhã, crônicas para o Correio Paulista e dirige a Revista Travel in Brazil, no Rio. Além disso, mantém sua atividade no Pavilhão Mourisco.
"(...) A bondade está ali - detrás daquela porta que se abre em silêncio, na sala onde a mesa está sempre posta - Inutilmente o relógio marca o dia e a noite, pois a vida é sem fim. Ninguém estremece. Ninguém pensa nas horas muito a sério. Todos se sucedem, todos se lembram uns dos outros. Todos estão ali à espera dos que chegam. (...)"
A Biblioteca Infantil, mais do que um sonho embalado desde a infância, é um sucesso no Rio de Janeiro até 37, quando o Interventor do Distrito Federal invade o Centro e apreende o livro As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, um clássico norte-americano, sob acusação de comunismo. O caso repercute no Brasil e no exterior. Depois da invasão, o Centro de Cultura Infantil é fechado pelo Estado Novo.
O ano de 38 marcará seu retorno à poesia. O livro Viagem, publicado no ano seguinte (1939), composto por doze poemas, que podem ser interpretados como doze etapas de uma trajetória espiritual, onde vida e poesia se confundem, da mesma maneira que a poeta e a natureza. Formalmente, convivem lado a lado versos de sete e oito sílabas e versos livres.

Cecília Meirelles era uma poeta altamente técnica, uma grande artista do verso, que deixou expressa em sua obra a tensão entre o sentimento do fugidio e rigor que ela própria se impunha para expressar esse sentimento. Extremamente musical, com metáforas fortemente sensoriais e seu estilo no uso da primeira pessoa, parece ter cantado sempre o mesmo tema, a busca do eterno no transitório, do transcendente no contingente, do milênio no minuto.

"Retrato"
Eu não tinha esse rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo
eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas
eu não tinha este coração que nem se mostra
eu não dei por esta mudança tão simples, tão certa, tão fácil
em que espelho ficou perdida minha face?

 

Cecília, por Manuel Bandeira

A poeta vista por um outro "Senhor das Letras" e da emoção, Manuel Bandeira:
"Cecília, és tão forte e tão frágil. Como a onda ao termo da luta. Mas a onda é água que afoga: Tu, não, és enxuta."

Palavra final de uma poeta, Cecília Meireles:
"Acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação - mas por uma contemplação poética afetuosa e participante".



(Auto-retrato de Cecília Meirelles).

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