Sem pretensão filosófica ou de salvação
- mas por uma contemplação poética
afetuosa e participante".
A paixão pelos livros e a leitura foram o caminho
natural percorrido por Cecília. Em 1919, aos 18 anos,
publica seu primeiro livro de poemas: Espectros, iniciando
um período de grande produção.
A partir de 1925, sua face de educadora se sobressai à
da poeta. Em 1927, ela publica a prosa poética Criança,
meu amor, livro que posteriormente seria indicado como leitura
oficial nas escolas.
Aos 21 anos casa-se com o artista plástico português
Fernando Correa Dias. Ele seria o ilustrador de futuras
obras da poeta e pai de suas três filhas: Maria Elvira,
Maria Matilde e a grande atriz Maria Fernanda. Segundo críticos
de sua obra, Cecília Meirelles associa uma percepção
sensorial a outra, produz sinestesias transfiguradoras da
realidade, anunciando o nível de sua futura produção,
manifestado através do desejo da união da
alma humana com Deus.
"A
chuva chove..."
A chuva chove mansamente...como um sono
Que tranquilize, pacifique, resserene...
A chuva chove mansamente...Que abandono!
A chuva é a música de um poema de Verlaine...
E vem-me o sonho de uma véspera solene,
Em certo paço, já sem data e já sem dono...
Véspera triste como a noite, que envenene
A alma, evocando coisas líricas de outono...
A
despeito de perseguições mais ou menos veladas
e de dificuldades financeiras, Cecília luta ainda
mais pela renovação educacional vigente. Entre
junho de 1930 e janeiro de 33, dirige a Página da
Educação no Diário de Notícias
do Rio de Janeiro. Em seus artigos sobre política,
educação e cultura, rompe tabus de uma sociedade,
deixando sua marca na História Brasileira como defensora
da idéia universal de democracia, numa década
em que o mundo vive o período de transição
das duas Grandes Guerras.
A "Página da Educação", comandada
por Cecília Meireles, causa fúria no meio
político nacional. Cecília refere-se ao então
presidente e ditador Getúlio Vargas como "Sr.
Ditador". Sustentando a idéia de um Brasil menos
ufanista, coleciona inimigos e desafetos. Entre eles Alceu
Amoroso Lima, crítico católico que, em 71,
reconheceria na poeta "uma grande figura feminina do
modernismo". Os modernistas, aliás, a consideravam
uma revelação, a partir da publicação
de Espectros e Baladas para El-Rei.
"Amor-perfeito"
Suas
cores são as de outrora,
com muito pouca diferença:
o roxo foi-se quase embora,
o amarelo é vaga presença.
E em cada cor que se evapora
Vê-se a luz do jardim suspensa.
Veludo de divinos teares,
hoje seda seca e abolida,
preserva os vestígios solares
de que era feita a vida:
frágil coração, capilares
de circulação colorida.[...].
Em
34, com o marido, inaugura o Centro de Cultura Infantil
do Pavilhão do Mourisco, no Rio. É a primeira
biblioteca infantil do país. A convite do governo
português, Cecília Meireles dá início
a um período de viagens ao exterior. Em Lisboa e
Coimbra difunde a cultura, literatura e o folclore brasileiros,
em uma série de conferências. Em 1935, ao retornar
ao país, novo período de sofrimento não
demora a surgir, com o suicídio do marido.
"Canção"
Nunca eu tivera querido dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca, e depois no teu ouvido.
Levou somente a palavra, deixou ficar o sentido.
O sentido está guardado no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso como um beijo malogrado.
Nunca ninguém viu ninguém que o amor pusesse
tão triste.
Essa tristeza não viste, e eu sei que ela se vê
bem...
Só se aquele mesmo vento fechou teus olhos, também...
Responsável
pela educação das três filhas, Cecília
Meireles amplia suas atividades profissionais. Volta a lecionar;
escreve sobre folclore no jornal A Manhã, crônicas
para o Correio Paulista e dirige a Revista Travel in Brazil,
no Rio. Além disso, mantém sua atividade no
Pavilhão Mourisco.
"(...) A bondade está
ali - detrás daquela porta que se abre em silêncio,
na sala onde a mesa está sempre posta - Inutilmente
o relógio marca o dia e a noite, pois a vida é
sem fim. Ninguém estremece. Ninguém pensa
nas horas muito a sério. Todos se sucedem, todos
se lembram uns dos outros. Todos estão ali à
espera dos que chegam. (...)"
A Biblioteca Infantil, mais do que um sonho embalado desde
a infância, é um sucesso no Rio de Janeiro
até 37, quando o Interventor do Distrito Federal
invade o Centro e apreende o livro As aventuras de Tom Sawyer,
de Mark Twain, um clássico norte-americano, sob acusação
de comunismo. O caso repercute no Brasil e no exterior.
Depois da invasão, o Centro de Cultura Infantil é
fechado pelo Estado Novo.
O ano de 38 marcará seu retorno à poesia.
O livro Viagem, publicado no ano seguinte (1939), composto
por doze poemas, que podem ser interpretados como doze etapas
de uma trajetória espiritual, onde vida e poesia
se confundem, da mesma maneira que a poeta e a natureza.
Formalmente, convivem lado a lado versos de sete e oito
sílabas e versos livres.
Cecília Meirelles era uma poeta altamente técnica,
uma grande artista do verso, que deixou expressa em sua
obra a tensão entre o sentimento do fugidio e rigor
que ela própria se impunha para expressar esse sentimento.
Extremamente musical, com metáforas fortemente sensoriais
e seu estilo no uso da primeira pessoa, parece ter cantado
sempre o mesmo tema, a busca do eterno no transitório,
do transcendente no contingente, do milênio no minuto.
"Retrato"
Eu não tinha esse rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo
eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas
eu não tinha este coração que nem se
mostra
eu não dei por esta mudança tão simples,
tão certa, tão fácil
em que espelho ficou perdida minha face?
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