Ao longo de seus escritos, para além de um entendimento racionalizado, este autor nos convoca para uma aproximação da psicanálise atravessada por outros modos cognitivos como, por exemplo, pela experiência estética vivida através das afecções que se estabelecem na leitura de seus textos. Estimulando o corpo sensível para apreensão dos conceitos, Winnicott nos permite uma compreensão mais acurada de comportamentos e sintomas que por vezes são incompreensíveis em uma leitura feita a partir dos domínios da psicanálise clássica. Deste modo, cria uma abertura para novas possibilidades de contato e ação clínica.
Winnicott propôs inúmeras idéias em que, na própria constituição destas, é privilegiado o desvio de uma normatização do saber psicanalítico, embora muitos seguidores tenham visto e deduzido de seus escritos construções normativas. Suas construções conceituais, pelo contrário, estavam sempre buscando afirmar a singularidade dos encontros, revelando que para cada díade mãe-bebê as ações decorrentes eram únicas, pois se inscreveriam nas experiências suscitadas pelos ritmos e movimentos de cada corpo, em suas particulares excitabilidades, nas formas como se manifestam as forças de cada um.
A ideia de ambiente colocou em cena a importância fundamental das questões culturais na constituição da subjetividade. Winnicott participou ativamente dos problemas causados pela Segunda Guerra Mundial, não só discutindo os efeitos devastadores nas formações subjetivas, fossem adultos ou crianças, mas dentro da própria sociedade psicanalítica, frente às disputas teóricas que se faziam entre os analistas, “adversários irredutíveis, esses Capuleto e Montéquio” (PONTALIS, 1991, p. 121), a partir dos achados M. Klein e Anna Freud. Esse autor (WINNICOTT, 1990) marcava a importância de que teorias contraditórias pudessem conviver juntas. Desnecessário dizer que é o impedimento ao reconhecimento do outro, que instituem os sistemas totalitários, produzindo seus massacres homogeneizantes.
Em carta escrita a Sra. Klein em novembro de 1952, Winnicott (1990, p. 30-32) evidencia o importante fato de se ter em conta, na transmissão de um pensamento, a ideia de que a língua perde sua vivacidade – característica do pensamento singular que se faz em segredo – ao ser partilhado pela comunidade, pois, ao se tornar, ao ser partilhado, senso comum transforma-se em língua morta. Esta clareza do lugar do desaparecimento do discurso e a vivacidade da língua revela um pensador que se ocupa da tirania do saber inscrito nas subjetividades, denunciando a estrutura que se formava na sociedade britânica de psicanálise através do fenômeno denominado kleinianismo. Não estamos muito longe dos dias atuais, pois este fenômeno continua e continuará a existir para além do kleinianismo.
Escreve ele a M. Klein:
Estou preocupado com esta estrutura que poderia chamar de Kleiniana, que acredito ser o real perigo para a difusão de seu trabalho. Suas ideias só viverão na medida em que forem redescobertas e reformuladas por pessoas originais, dentro e fora do movimento psicanalítico. [...] Todo trabalhador original precisa de um círculo seleto, onde possa estar ao abrigo das controvérsias e no qual possa se sentir à vontade. O problema, porém, é que o círculo desenvolve um sistema baseado na defesa da posição conquistada pelo trabalhador original, neste caso, você mesma. Freud, creio eu, percebeu este perigo. Você é a única que pode destruir esta linguagem chamada doutrina kleiniana, ou kleinianismo [...]. Se você não destruí-la, então este fenômeno artificialmente integrado tem que ser atacado destrutivamente. Ele convida ao ataque [...]. (WINNICOTT, 1990, p. 31).
Tanto a questão do poder do significante, quanto aos construtos teóricos sobre os processos subjetivos vividos nos estados afetivos como forças intensivas, já estão aí aludidos. Aponta, ao falar do convite ao ataque, com muita pertinência, para a manifestação de força opositora destrutiva quando algo que se torna paralisado ou fixado não se desconstrói em uma ação necessária. Assim, a originalidade é vista por ele como algo que marca sua própria destruição na constituição transformada por novos agenciamentos. Este descontínuo-contínuo nos remete à questão do paradoxo que foi desenvolvido em muitas de suas temáticas, resultando na ideia de que um processo de análise não é algo que caminhe para uma cura, mas para a produção de possibilidades em sustentar a vida na sua complexidade paradoxal.
Segundo Pontalis (1991), Winnicott, com sua construção conceitual, aproxima o saber analítico desta propriedade fundamental que é a apreensão das singulares manifestações das relações de objeto realizadas pelo sujeito, em suas ações no mundo. O autor ressalta, também, que no processo de vir-a-ser este outro que se institui na alteridade e que denomina mãe é “um banho de palavras, são olhares, sorrisos, contatos, braços que amparam – o que se chama, na falta de melhor coisa, ambiente” (PONTALIS, 1991, p. 117). Essa afirmação nos coloca frente não só à dimensão da singularidade, mas também para a dimensão necessária da ação, da estesia, da corporeidade na experiência primária constituída na afecção com o mundo.
Deleuze, em seu texto o “O pensamento nômade” (1985), nos diz que:
[...] um psicanalista como Winnicott mantém-se realmente no limite da psicanálise [...]. Há um momento em que não se trata mais de traduzir, de interpretar, de traduzir em fantasmas, interpretar em significantes, não, não é isto. Há um momento em que será necessário partilhar, é preciso colocar-se em sintonia com o paciente, é preciso ir até ele, partilhar seu estado. (DELEUZE, 1985, p. 59-60).
A ideia de um fazer analítico que se coloca no limite da psicanálise traz de volta uma clínica e, naturalmente, um pensamento característicos de seu modo de ser inaugural, um saber que acontece nas suas bordas a partir de reflexões transgressivas à lógica dominante. Dentro desta proposição é que localizamos as contribuições desse autor. A ideia é poder construir com suas elaborações conceituais uma ponte para pensar a constituição subjetiva apoiada no que escapa a uma visibilidade, ao redutor universo significante.
No artigo “Preocupação materna primária” (1956/1978) Winnicott nos convida a refletir sobre sua construção inovadora a respeito da posição do analista. Buscando referenciá-la nos parâmetros encontrados a partir de suas observações da díade mãe - bebe, através do processo de maternagem exercida nos primeiros estágios do desenvolvimento do infante, o autor propõe a ideia de management como corolário de uma ação pautada em variações técnicas e disponibilidade subjetiva para ir ao encontro das necessidades do paciente.
As pesquisas winnicottianas referidas às condições psíquicas da mãe se assemelham à ideia de Ferenczi, que, ao falar do amor (LORIN, 1983), sugere que o encontro amoroso é um encontro psicótico possível, onde o psiquismo de um se abriria ao psiquismo do outro. Nessa interação ocorreria a construção do espaço potencial de vida.
Winnicott, seguindo os passos inaugurais de Ferenczi (1988), nos conduz a uma reflexão sobre figura materna em que, numa perspectiva espaço-temporal, poderá ajudar o desenvolvimento de seu bebê, através do dispositivo da psicose, como condição para realizar o que denomina preocupação materna primária. Esta tarefa se realizaria por um aumento da sensibilidade, gradualmente perdido à medida que a criança se desenvolve. Este aumento teria a função de acompanhar o bebê nas suas necessidades básicas, no seu ritmo.
Somente quando possui sensibilidade do tipo de que estou descrevendo é que uma mãe pode sentir como se estivesse no lugar do bebê e deste modo responder às necessidades do bebê. Estas são inicialmente necessidades corporais e gradualmente tornam-se necessidades do ego, à medida que, a partir da elaboração imaginativa da experiência física, surge a psicologia. (WINNICOTT, 1978, p. 496).
Assim, podemos pensar esta disfunção, característica da capacidade psíquica materna ao se ocupar da construção de um outro, como algo que estaria à disposição para ser vivido e, assim, viabilizar a qualidade de intimidade no encontro com o outro. E é esta abertura para o outro, a ativação de um estado deiscente, que possibilitará em última instância o pensamento, como criação. Pois esta abertura é uma realização ativa do ambiente ao novo. Esta característica se torna uma experiência que inocula na subjetividade do bebê uma forma de existência que pode ser evocada pelos sentidos, na troca com o mundo. Mas esta capacidade inventiva se paralisaria, segundo Winnicott, se o ambiente em torno do psique-soma recém-formado (WINNICOTT, 1978, p. 409-425) se posicionasse de forma hostil, produzindo neste uma reação, perturbando a continuidade de existência do ser.
A presença deste outro que se chama mãe só pode ser experienciada por alguém que sustenta viver a experiência dos estados não-integrados, tornando-se, deste modo, receptivo às experimentações do bebê. São três as funções da maternagem: o handling: o modo como o bebê é manuseado; o holding: a sustentação e acolhimento; e a apresentação de objeto que se caracteriza como ato de inauguração do pensamento, através do processo de descoberta-criação.
Os cuidados dispensados ao bebê atestam a forma movente e interativa em que se constitui a subjetivação que se realiza na corporeidade. No processo de erotização, as afecções vividas no corpo são experimentadas pouco a pouco pelo bebê através do manuseio que, partindo da onipotência primária através da realização no e com o mundo, é capaz de se diferenciar, via apropriação de um corpo que se constitui na transicionalidade.
A capacitação ao pensamento que é principiada pelo trabalho realizado pela mãe na apresentação do objeto será transformada, através do brincar, via fenômenos transicionais, na experimentação materializada que possibilita o trânsito de ideias, imagens, ruídos e outros moventes pela ação rítmica das vivências, desenvolvendo, assim, o processo de autonomia do pensamento. Esse processo de autonomização irá possibilitar à criança conquistar, ao fim e ao cabo, o que Winnicott denomina consern. O termo tem sido traduzido por preocupação, mas é importante frisar que esta capacidade, mais que referida à culpa, está localizada na constatação subjetivada do direito de existir com seus segredos e, por consequência, de ser capaz de se ocupar do outro. Para esse autor, a conquista desta capacidade está diretamente relacionada à condição de manter um corpo erotizado onde o pensamento tem autonomia e, portanto, pode construir espaços íntimos, o que se concretiza e se desenvolve sustentando a abertura para as afecções propiciadas pelo entorno.
Esse processo se realizará, para Winnicott, através do espaço de ilusão, oriundo das primeiras experiências de descoberta do mundo. A conquista deste espaço irá favorecer a realização da transicionalidade. Este conceito se articula com a experiência de posse do não-eu. A partir do brincar, nas dobraduras do corpo, pelo autoerotismo, é que o bebê poderá se separar e perder os objetos primários de investimento e lidar com o que se coloca como realizável, ou seja, lidar com a realidade. Esta capacidade será propiciada pela condição de temporalização que se estabelece na experiência de continuar a existir no tempo, na qual o bebê é capaz de se perceber continuar existindo apesar da ausência do objeto e isto se constrói através, primeiramente, da confiança básica decorrente dos primeiros cuidados maternos e, posteriormente, pelo fenômeno transicional.
Os primeiros cuidados maternos, ou manejo como tradicionalmente é traduzido o termo manegement, se descreve a partir da ideia do manuseio, porém na busca por seus sentidos, encontramos como tradução e sinonímia a conotação de manobra, de gestão que nos parece mais adequada aos construtos winnicottianos. Estes termos nos trazem a ideia de variação e de desvios que estão implícitos nas ações de cuidado materno, posto que, tais cuidados - que se desenvolvem no tempo, se configuram a medida dos acontecimentos ocorridos na vida do bebe.
Referindo-se ao processo de construção de uma escuta analítica que se sustente neste fazer materno, Winnicott em seu texto “Preocupação materna primária” nos diz da sofisticação deste processo, assim como da dificuldade em nos aproximarmos deste desconhecido e temido ser mulher, ser materno de todos nós:
Na verdade, um reconhecimento da dependência absoluta com relação à mãe, e de sua capacidade para sentir a preocupação materna primária, ou como queira chamá-la, é algo que pertence a uma extrema sofisticação e a um estádio, nem sempre atingido por adultos. O fracasso geral do reconhecimento da dependência absoluta existente no início contribui muito para o medo de MULHER, sentido por homens e mulheres. (WINNICOTT, 1978 p. 497)
Faz, deste modo, em relação ao trabalho clínico, um apelo à fibra maternal que todo ser – homem ou mulher- traz em si, pois, é via esta capacidade de aproximação do campo de afetação – do feminino, que podemos compreender o que e como o outro recebe e expressa seu mundo.
Assim, só uma empatia comparável da mãe na relação com seu bebe permite uma comunicação mais discreta como são os sinais emitidos por um lactente. Dentro desta perspectiva um ato analítico passa a requerer além de sua experiência, sua qualidade humana, sua arte e um movimento em direção ao outro no reconhecimento de sua diferença, na medida em que solicita, entre outras coisas, uma abertura em direção ao outro, um encontro psicótico possível - como apontado por Ferenczi, como condição de receptividade necessária aos processos primários do desenvolvimento.
A partir desta proposição, podemos dizer que, Winnicott, ao libertar o psicanalista de sua inércia formalista cria um encontro vivo no qual se entreve as forças, a processualidade. Neste sentido o fazer clínico se aproxima de um fazer estético possibilitando um contato com o outro a partir dos afetos que são tão cambiantes quanto à multiplicidade variável que constitui a alteridade. Este conjunto de afetos forma uma realidade sensível, corpórea, mutável, pois estão sempre em transito com as coisas do mundo e, pelos atravessamentos vividos, deslocam-se incessantemente os territórios, criando novos percursos subjetivos.
REFERENCIAS
WINNICOTT, D, Da Pediatria a Psicanálise. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.
______. O Gesto espontâneo. São Paulo. Martins Fontes, 1990.
TUSTIN, F., Barreiras autistas em pacientes neuróticos, Porto Alegre, Artes Médicas, 1990.
PONTALIS, J-B. Perder de Vista. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor, 1991.
LORIN, C., Le Jeune Ferenczi. Paris: Aubier Montaigne, 1983.
FERENCZI, S., Escritos Psicanalíticos 1909 – 1933. Rio de Janeiro: Taurus, 1988.
DELEUZE, G. Pensamento Nômade. In Nietzsche Hoje? Scarlett Marton (org). São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 56-76.