De uma
ignição suprema nasce a Flor do Pântano...
Tudo exulta de alegria ao seu redor.
Por
todos os motivos que nos reúnem neste II Seminário
Sobre Políticas Sociais, um a mais se inclui como
pessoal, o de escolhê-lo como espaço e público
para levar ao debate um esboço de uma tese que venho
desenvolvendo, a partir da experiência de mais de
vinte anos como psicanalista e envolvimento com projetos
sociais na área da infância e adolescência,
especialmente em saúde mental, mas também
na poesia. Em outras palavras, colocar aqui mais uma vez
a palavra no centro do que podemos nos valer, para
valer como o que a coloca em causa, sempre que trabalharmos
para uma comunidade de expressão. Espero pelas ressonâncias
e contribuições que aqui se produzirem como
provocação mesmo, tal como as que me inquietam
tanto tempo como desafio a descobertas; como parceiros que
a recebem, cujo retorno poderá trazer novos olhares
para as atividades multidisciplinares que estão em
jogo, de cujo movimento faz parte este Seminário,
num caudal de trocas de idéias emanações,
tanto quanto irmanações.
Falar sobre a infância ou sobre a adolescência,
especialmente quando demarcamos uma amostra daqueles que
não vivem a dignidade do seio de uma família
estruturada, apresenta uma dupla dificuldade. De um lado,
a falta desse seio, entendida como a extensão dos
cuidados para além do parto, do primeiro calor e
da palavra que os engendrou como humanos, e o deparar-se
com uma carência, difusa porque não comunicada,
e que se estampa, porém, e se expressa nas mais diversas
formas de violência do jovem assim chamado em estado
de vulnerabilidade social. Desconsiderando toda violência
sofrida para que chegasse a essa exacerbação
em sua estrutura vital, mormente é tomado como sujeito
anti-social. Isso confunde a quem pretende intervir socialmente
para ajudá-lo, se ficar limitado ao seu aspecto exterior
e aparente de delinqüência. Será que seria
possível atendê-lo no que precisa baseado apenas
nas aparências? Embora importantes, mas será
que bastaria dar-lhe um local organizado, uma família
estruturada que não teve; alimento adequado, escola,
na intenção de aplacar sua expressão
como reação a seu desamparo? De outro, como
respeitar o habitat que se constituiu no lugar daquele que
não vingou como fruto da família estruturada,
quer dizer um fruto que não sabemos de que árvore
surgiu, porque se encontra rolando pela árida encosta,
no sinuoso centro da cidade ou se desloca pelas beiras,
se safando de pontapés?
Trata-se de registrar inicialmente em nosso arquivo, para
que sempre a ele possamos voltar, de que temos aí
um sofredor, na mesma medida de onde tira seu gozo, antes
de pensarmos na modalidade de expressão que nele
predomina antes de saber o que precisa. Sofre de uma dor
que o acossa em sua existência de um duplo modo: de
um lado o que sofreu, insiste como sendo sua marca o sofrimento,
como um arquivo de onde tira seu funcionamento. De outro,
o sofrimento atualizado forma defesas, misturando os fantasmas
de suas marcas, com o medo de um fim ali mesmo e em função
disso, agride o que quer que venha, fruto de sua representação
interna, do pavor que o torna acuado para o outro socialmente
estruturado. Seja o outro como pessoa, seja o outro como
instituição, ali ele ver-se-á no espelho
estranha e sensivelmente exposto, e reage. Na mesma medida,
então, goza dessas marcas que o estruturam desde
esse sofrimento, ao mesmo tempo em que goza de instantes
da emergência de um frêmito, pela tomada de
assalto de um misto de medo e seus fantasmas, confundindo
sua realidade diante do outro, porém encontrando
equilíbrio desta maneira: indo até as últimas
conseqüências como expressão de um sobrevivente
que se debate diante do naufrágio, como nau frágil
diante de um mar sem terra firme. Quando, para sua melhor
sorte, alguma coisa comparece para reequilibrar seu mundo
interno com o exterior, terá o caráter
de uma criação, ou seja, de uma expressão
que o representa para a universalidade que caracteriza o
simbólico, o social, porque encontrou expressão
universal. Qualquer gesto nesta direção, virá
de seu mundo caótico, quando se tornará o
remador desse mar, podendo alcançar também
a terra firme e orientado para um futuro. Como criação,
terá sua estética. Estética talvez
tão inovadora, que se perderá aos olhos de
quem o assiste, requerendo deste desenvolver a sensibilidade
para o que se mostra nesta tarefa, de orientar sua práxis
para além do exercício da razão, torná-lo
participante da ilusão coletiva de sua época.
Temos então, um sujeito que se debate, que se desgoverna;
manobra, que se dilacera, se curva; que se estrebucha, agride,
que grita ou silencia diante do outro, colocando-o assim
à distância. Nasce ali, na relva espontânea,
porque sem nenhum artifício estruturado como uma
família, um cIrá para as ruas, esquinas;
circulará pelas avenidas. Ora como malabarista, ora
como fugitivo. Ora como engraxate, ora como engraçado
a percutir sua caixa. Rirá do próprio riso,
como quem ri se curando da própria desgraça,
para logo em seguida deparar-se com seu arquivo não
morto, mas reavivado em novo sofrimento. Porque não
pensar que ali aonde sempre fora visto, presunçosamente,
como um menino abandonado, possa comparecer, mas como mudança
de nosso modo de olhar, um artista? Somos transformados
por ele em sua platéia. Aceitaremos seu 'chega pra
lá'; nos colocaremos como assistência social;
afinaremos com seu gesto, até perceber sua elegância.
Não para dar moedas; não para imobilizá-lo
com nosso falso aplauso; não para ilusioná-lo
com alguma promessa de se identificar com nosso mundo em
troca de nossa atenção ou alimento. Com ele
agiremos com a mais deslavada das verdades, que virá
da nossa ignorância, quando não do invejarmos
sua astúcia e liberdade. Talvez só então,
possamos nos colocar no lugar de onde pode contar com uma
saída, ou entrada. Seremos apenas porta e não
quem porta a solução que se encontra, ainda
caoticamente, nele. Seremos portão pouco, quase nada,
uma moldura a anunciar um espetáculo que for capaz
de representar socialmente enquanto criação
e sua função coletiva. Nela se engajará
pra valer, submeter-se-á à disciplina que
requerer, treinará à exaustão para
alcançar seu gesto mais expressivo. Trará,
por fim a alegria, exilada também de nós,
como sublimação de um sofrimento. Ensinar-nos-á
uma nova disciplina: a de como buscar o que também
perdemos dessa alegria, quem sabe tendo ele como nosso guia?
Na rua é onde se aprende a ser alegre. Um homem alegre
é um homem suspeito. Uma mulher alegre é o
próprio preconceito. Vamos ao circo. Aonde há
um circo? Somos uma sociedade triste, e corremos o risco
de procriar em profusão, figuras tristes, trancadas
em seus gradeados sítios, enquanto a rua enraivecida
se esvazia para dar lugar ao desfile dos cavalos e elefantes
de aço. Miragens num deserto, por entre eles, ainda
circulam na rua alguns sobrevidas de uma espécie
que vive o limiar de uma experiência profunda, mas
que se retiram em disparada, sem tempo de degustá-la
tampouco, como a alegria que desaparece com o circo, que
desaparece como ciclo de uma alegria que desaparece num
confim que definha, se embreta e se fecha.
Na rua é que se aprende a ser humilde. Dentro de
casa somos todos mEga. No embate das relações
familiares, a medida máxima é a que comparece
como a mais reclamada. Ninguém quer deixar por menos.
Nem a dor de barriga do bebê; nem a roupa que deseja
vestir; nem o melhor pedaço de carne. Se puder, ficará
com toda a carne, injetará um anestésico direto
na barriga, ficará com a melhor roupa, não
dividirá com ninguém o doce, porque simplesmente
poderá morrer de fome ou de dor ao não ser
tomado como O Tal, mas apenas como 'um', ter que esperar
a sua vez. Porque ali em cada uma dessas condições,
se anuncia a morte, como esse instante extremo, como a extrema-unção
de ser TODO que definha para ser 'um'. Morte, neste sentido,
quer dizer, consumir-se junto com o fim das coisas, ao mergulhar
na unidade, para ganhar a rua, portanto a vida, porque aí
viverá o risco de a cada instante silenciosamente
soar o timer que a delimita.
Ninguém nasce com um timer, um aparelhinho
que contemporize nossos desejos e demandas de ter e ser
o TODO e pra já, que adie para um momento posterior
mais adequado ou possível, de tal modo que a cada
vez possamos sentir o gosto das pequenas coisas, justamente
porque não podemos tudo; não temos toda carne,
quando muito um pedaço; não temos todo amor,
apenas na vez e trabalho de recebê-lo, quando então
talvez nem percebamos ou acharemos que é pouco. Mais
ou menos como ninguém nasce com o termostato que
regula a temperatura corporal, não temos o termostato
para a vida social. Ele vai se construindo, se afinando,
durante o embate com esses momentos, a partir do encontro
com as variadas temperaturas de seu habitat familiar, emergir
nossa aptidão para a fraternidade. E ainda assim,
se muda para outro ponto geográfico onde a temperatura
é diferente, terá que regular novamente o
aparelho, se acertar com o novo tempo do outro, como aprender
uma nova língua.
Por outro lado, quando a fome parece definhá-lo porque
aparentemente não se dispõe a comer, a mãe
é que empurra toda carne, pois se não comer
poderá morrer. Como se o forçasse a entrar
novamente para dentro de seu útero. Uma 'inversão
térmica' pode levar o bebê, ou a criança,
então, a uma catalepsia, a uma 'pneumonia alimentar',
a querer comer desesperadamente toda fome. Sacia-se da fome
e se mete numa indigesta: a fome é o alimento mais
difícil de digerir. E de engolir. A mãe não
suporta a fome de um filho. Mesmo porque é esta fome
que o levará para longe dela, quando ele puder se
constituir a partir do espaço de fome que o lançará
a buscar sozinho seu alimento. Não na geladeira próxima,
caseira, íntima, uterina. Esta será para ele
uma fria. A 'quente' estará um dia em sua frente,
no calor de sua efervescência desejante, a partir
da adolescência sonhadora. Sabemos, pela psicanálise,
que a fome e a falta, levam ao sonho e ao desejo. Lacan
define a partir daí o que seja Amar: "Amar é
dar o que não se tem"
(1). Então, temos que o mais difícil
de propiciar para um sujeito em estado de carência
é a falta estruturante e não o que temos para
dar. Mobilizados e afetados pelas aparências, logo
vamos empanturrando-o de coisas e o circulo vicioso se estabelece,
no mesmo movimento da angústia materna que tenta
'socar' coisas para mudar a situação. Lá
aonde houver alguém preservando essa fome (falta)
como condição psíquica vital, tal como
para se andar é preciso se desequilibrar, agirá
esse Amor. E a rua será o lugar de sua busca.
Do que terá fome (desejo) a mãe, que se formará
da fome de seu filho e não porque o alimenta, depois
que este souber encontrá-lo fora dela? Buscá-la-á
a si mesma, porque caída, abandonada, não-toda,
e retornará ao ponto mesmo de onde partiu sua saga
materna, cuja falta foi suprida temporariamente na tensão
e no 'todo-tesão' de ter e cuidar de um filho. Mas,
agora é zero a zero, bola no meio de campo e uma
nova etapa de vida. Que poderá ser de um novo filho,
um trabalho que a gratifique, ou o voltar-se para o marido
se ainda tiver. Ou outro que venha suprir o vazio de seu
regaço, que lhe dará sentido às mãos
e corpo agora vazios. Será artesanato. Mulher a se
fazer alguma coisa consigo mesma. Estará na rua,
sairá charmosa ou, como uma saíra, pássaro
frágil, vistoso; indefesa, ao mesmo tempo que de
bico empinado, suscetível a algum homem que a coloque
em coma de paixão. Essa queda a fará pecadora,
em falta, humana, sem o peso que lhe confere a insígnia
materna e os homens agradecê-la-ão com olhares,
que valerão pra ela a renúncia de toda queixa
de não ser tudo; de ser, por fim, um ser de amor,
de perdas e de 'iremboras'.
Não tenho os passos que podem me levar adiante. Eles
ficaram pra trás, aniquilados pela aridez com que
o mergulho na ignorância enlameia e prende, no ácido
pântano da indiferença coletiva. Estou sozinho.
Ninguém me alcançará o que preciso,
uma vez que de minha cabeça pra fora, ninguém
sabe o que preciso. Quanto ao que preciso, nem eu mesmo
sei. Ajo simplesmente, movido pelo que preciso e não
sei. Perco-me das pernas que tenho, do cérebro que
tenho, das mãos que tenho. Perco-me de minha pele
para o que sentir. Do coração para o que amar.
E o conserto, para que valham minhas pernas, minhas mãos,
meu cérebro, minha pele, meu coração?
Que diferença tem todos esses pedaços dispersos,
cada um tentando funcionar num menino ou menina de rua,
de um bando de músicos sem maestro? Quando muito,
conseguirá dar cambalhotas a esmo, fazer caretas
sem platéia, lutar com outro colega, para não
perder a viagem da vida, na busca ao menos de alguma pose.
Mas, a mestria, a sabedoria, a direção, a
regência, quem a fará? Essa regulagem, que
vem da batuta do Amor, quer dizer, vem de algum lugar, essa
sim, não virá dele, vem de fora, vem de um
longo ensaio para que seja falta, para que nele faça
Arte, quer dizer, para o assombro e pasmo do mundo.
Somos formados por coisas que vem de fora, de uma história
anterior. A cultura humana entra a partir de uma organização
de desejos de fora, cuja matriz, em nossa organização
cultural, chamamos de família. É preciso que
alguém nos queira para querer nos passar os bens
da cultura à sua maneira, os cuidados e tempo necessários:
a língua materna, os costumes da comunidade em que
viverei; os hábitos de vestir, alimentares, comportamento
social e a falta como a fonte dos nossos desejos. O encontraremos
depois num escritório, num banco, num barco, numa
empresa comandando pessoas, na sala de aula ou numa Secretaria
Municipal pensando a comunidade. Tudo isso, se ocorrer numa
razoável atmosfera de afeto e de amor, pode-se pensar
que culminará na constituição de um
sujeito normal dessa sociedade. Fora disso, terá
que ser mesmo artista.
Porto Alegre, 11 de setembro de 2006.
____________________
(1) -
LACAN, Jean Jaques. SEMINÁRIO 17 - A Ética
da Psicanálise, 2.a Ed. Rio de Janeiro, Zahar Ed.,
1992
PSICANÁLISE
DAS RUAS
Seres
tênues e nus, soltos na profundidade das ruas!
Ao contrário do que pensas, não penso.
Logo, inexisto como homem se não por alguma passagem,
Em cuja parada contemplo uma mulher,
Uma poesia, um livro, uma flor de beira.
No mais, é o cotidiano com suas lâminas afiadas,
Os tapas da realidade crua e incongruente,
Tapeada pela indigência
Que ainda acredita na mão estendida, mas não
no carro que passa.
O menino que foge na direção da praça,
Sem degustar a rua,
Que nem sua nem de nenhum menino mais,
Pertence às traças do mercado - Decapitais.
Enquanto um psicanalista silencia: - que mais?.