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Razão e sensibilidade para uma comunidade de expressão

por Luciano Fialkowski

 

Situar la posición de un analista frente al desafío que plantean los niños que sufren fuertes carencias de orden socio-cultural, impone serias tensiones subjetivas en el propio psicoanalista. El autor, en el marco de un Seminario sobre Políticas Sociales -en Porto Alegre- advierte sobre la economía de un sufrimiento que se padece con extremo dolor, pero que ofrece -también- al niño carenciado, un lugar de goce que organiza su existencia. Entre la razón y la sensibilidad… "dar lo que no se tiene".

 


De uma ignição suprema nasce a Flor do Pântano...
Tudo exulta de alegria ao seu redor.

Por todos os motivos que nos reúnem neste II Seminário Sobre Políticas Sociais, um a mais se inclui como pessoal, o de escolhê-lo como espaço e público para levar ao debate um esboço de uma tese que venho desenvolvendo, a partir da experiência de mais de vinte anos como psicanalista e envolvimento com projetos sociais na área da infância e adolescência, especialmente em saúde mental, mas também na poesia. Em outras palavras, colocar aqui mais uma vez a palavra no centro do que podemos nos valer, para valer como o que a coloca em causa, sempre que trabalharmos para uma comunidade de expressão. Espero pelas ressonâncias e contribuições que aqui se produzirem como provocação mesmo, tal como as que me inquietam tanto tempo como desafio a descobertas; como parceiros que a recebem, cujo retorno poderá trazer novos olhares para as atividades multidisciplinares que estão em jogo, de cujo movimento faz parte este Seminário, num caudal de trocas de idéias emanações, tanto quanto irmanações.
Falar sobre a infância ou sobre a adolescência, especialmente quando demarcamos uma amostra daqueles que não vivem a dignidade do seio de uma família estruturada, apresenta uma dupla dificuldade. De um lado, a falta desse seio, entendida como a extensão dos cuidados para além do parto, do primeiro calor e da palavra que os engendrou como humanos, e o deparar-se com uma carência, difusa porque não comunicada, e que se estampa, porém, e se expressa nas mais diversas formas de violência do jovem assim chamado em estado de vulnerabilidade social. Desconsiderando toda violência sofrida para que chegasse a essa exacerbação em sua estrutura vital, mormente é tomado como sujeito anti-social. Isso confunde a quem pretende intervir socialmente para ajudá-lo, se ficar limitado ao seu aspecto exterior e aparente de delinqüência. Será que seria possível atendê-lo no que precisa baseado apenas nas aparências? Embora importantes, mas será que bastaria dar-lhe um local organizado, uma família estruturada que não teve; alimento adequado, escola, na intenção de aplacar sua expressão como reação a seu desamparo? De outro, como respeitar o habitat que se constituiu no lugar daquele que não vingou como fruto da família estruturada, quer dizer um fruto que não sabemos de que árvore surgiu, porque se encontra rolando pela árida encosta, no sinuoso centro da cidade ou se desloca pelas beiras, se safando de pontapés?
Trata-se de registrar inicialmente em nosso arquivo, para que sempre a ele possamos voltar, de que temos aí um sofredor, na mesma medida de onde tira seu gozo, antes de pensarmos na modalidade de expressão que nele predomina antes de saber o que precisa. Sofre de uma dor que o acossa em sua existência de um duplo modo: de um lado o que sofreu, insiste como sendo sua marca o sofrimento, como um arquivo de onde tira seu funcionamento. De outro, o sofrimento atualizado forma defesas, misturando os fantasmas de suas marcas, com o medo de um fim ali mesmo e em função disso, agride o que quer que venha, fruto de sua representação interna, do pavor que o torna acuado para o outro socialmente estruturado. Seja o outro como pessoa, seja o outro como instituição, ali ele ver-se-á no espelho estranha e sensivelmente exposto, e reage. Na mesma medida, então, goza dessas marcas que o estruturam desde esse sofrimento, ao mesmo tempo em que goza de instantes da emergência de um frêmito, pela tomada de assalto de um misto de medo e seus fantasmas, confundindo sua realidade diante do outro, porém encontrando equilíbrio desta maneira: indo até as últimas conseqüências como expressão de um sobrevivente que se debate diante do naufrágio, como nau frágil diante de um mar sem terra firme. Quando, para sua melhor sorte, alguma coisa comparece para reequilibrar seu mundo interno com o exterior, terá o caráter de uma criação, ou seja, de uma expressão que o representa para a universalidade que caracteriza o simbólico, o social, porque encontrou expressão universal. Qualquer gesto nesta direção, virá de seu mundo caótico, quando se tornará o remador desse mar, podendo alcançar também a terra firme e orientado para um futuro. Como criação, terá sua estética. Estética talvez tão inovadora, que se perderá aos olhos de quem o assiste, requerendo deste desenvolver a sensibilidade para o que se mostra nesta tarefa, de orientar sua práxis para além do exercício da razão, torná-lo participante da ilusão coletiva de sua época.
Temos então, um sujeito que se debate, que se desgoverna; manobra, que se dilacera, se curva; que se estrebucha, agride, que grita ou silencia diante do outro, colocando-o assim à distância. Nasce ali, na relva espontânea, porque sem nenhum artifício estruturado como uma família, um cIrá para as ruas, esquinas; circulará pelas avenidas. Ora como malabarista, ora como fugitivo. Ora como engraxate, ora como engraçado a percutir sua caixa. Rirá do próprio riso, como quem ri se curando da própria desgraça, para logo em seguida deparar-se com seu arquivo não morto, mas reavivado em novo sofrimento. Porque não pensar que ali aonde sempre fora visto, presunçosamente, como um menino abandonado, possa comparecer, mas como mudança de nosso modo de olhar, um artista? Somos transformados por ele em sua platéia. Aceitaremos seu 'chega pra lá'; nos colocaremos como assistência social; afinaremos com seu gesto, até perceber sua elegância. Não para dar moedas; não para imobilizá-lo com nosso falso aplauso; não para ilusioná-lo com alguma promessa de se identificar com nosso mundo em troca de nossa atenção ou alimento. Com ele agiremos com a mais deslavada das verdades, que virá da nossa ignorância, quando não do invejarmos sua astúcia e liberdade. Talvez só então, possamos nos colocar no lugar de onde pode contar com uma saída, ou entrada. Seremos apenas porta e não quem porta a solução que se encontra, ainda caoticamente, nele. Seremos portão pouco, quase nada, uma moldura a anunciar um espetáculo que for capaz de representar socialmente enquanto criação e sua função coletiva. Nela se engajará pra valer, submeter-se-á à disciplina que requerer, treinará à exaustão para alcançar seu gesto mais expressivo. Trará, por fim a alegria, exilada também de nós, como sublimação de um sofrimento. Ensinar-nos-á uma nova disciplina: a de como buscar o que também perdemos dessa alegria, quem sabe tendo ele como nosso guia?
Na rua é onde se aprende a ser alegre. Um homem alegre é um homem suspeito. Uma mulher alegre é o próprio preconceito. Vamos ao circo. Aonde há um circo? Somos uma sociedade triste, e corremos o risco de procriar em profusão, figuras tristes, trancadas em seus gradeados sítios, enquanto a rua enraivecida se esvazia para dar lugar ao desfile dos cavalos e elefantes de aço. Miragens num deserto, por entre eles, ainda circulam na rua alguns sobrevidas de uma espécie que vive o limiar de uma experiência profunda, mas que se retiram em disparada, sem tempo de degustá-la tampouco, como a alegria que desaparece com o circo, que desaparece como ciclo de uma alegria que desaparece num confim que definha, se embreta e se fecha.
Na rua é que se aprende a ser humilde. Dentro de casa somos todos mEga. No embate das relações familiares, a medida máxima é a que comparece como a mais reclamada. Ninguém quer deixar por menos. Nem a dor de barriga do bebê; nem a roupa que deseja vestir; nem o melhor pedaço de carne. Se puder, ficará com toda a carne, injetará um anestésico direto na barriga, ficará com a melhor roupa, não dividirá com ninguém o doce, porque simplesmente poderá morrer de fome ou de dor ao não ser tomado como O Tal, mas apenas como 'um', ter que esperar a sua vez. Porque ali em cada uma dessas condições, se anuncia a morte, como esse instante extremo, como a extrema-unção de ser TODO que definha para ser 'um'. Morte, neste sentido, quer dizer, consumir-se junto com o fim das coisas, ao mergulhar na unidade, para ganhar a rua, portanto a vida, porque aí viverá o risco de a cada instante silenciosamente soar o timer que a delimita.
Ninguém nasce com um timer, um aparelhinho que contemporize nossos desejos e demandas de ter e ser o TODO e pra já, que adie para um momento posterior mais adequado ou possível, de tal modo que a cada vez possamos sentir o gosto das pequenas coisas, justamente porque não podemos tudo; não temos toda carne, quando muito um pedaço; não temos todo amor, apenas na vez e trabalho de recebê-lo, quando então talvez nem percebamos ou acharemos que é pouco. Mais ou menos como ninguém nasce com o termostato que regula a temperatura corporal, não temos o termostato para a vida social. Ele vai se construindo, se afinando, durante o embate com esses momentos, a partir do encontro com as variadas temperaturas de seu habitat familiar, emergir nossa aptidão para a fraternidade. E ainda assim, se muda para outro ponto geográfico onde a temperatura é diferente, terá que regular novamente o aparelho, se acertar com o novo tempo do outro, como aprender uma nova língua.
Por outro lado, quando a fome parece definhá-lo porque aparentemente não se dispõe a comer, a mãe é que empurra toda carne, pois se não comer poderá morrer. Como se o forçasse a entrar novamente para dentro de seu útero. Uma 'inversão térmica' pode levar o bebê, ou a criança, então, a uma catalepsia, a uma 'pneumonia alimentar', a querer comer desesperadamente toda fome. Sacia-se da fome e se mete numa indigesta: a fome é o alimento mais difícil de digerir. E de engolir. A mãe não suporta a fome de um filho. Mesmo porque é esta fome que o levará para longe dela, quando ele puder se constituir a partir do espaço de fome que o lançará a buscar sozinho seu alimento. Não na geladeira próxima, caseira, íntima, uterina. Esta será para ele uma fria. A 'quente' estará um dia em sua frente, no calor de sua efervescência desejante, a partir da adolescência sonhadora. Sabemos, pela psicanálise, que a fome e a falta, levam ao sonho e ao desejo. Lacan define a partir daí o que seja Amar: "Amar é dar o que não se tem" (1). Então, temos que o mais difícil de propiciar para um sujeito em estado de carência é a falta estruturante e não o que temos para dar. Mobilizados e afetados pelas aparências, logo vamos empanturrando-o de coisas e o circulo vicioso se estabelece, no mesmo movimento da angústia materna que tenta 'socar' coisas para mudar a situação. Lá aonde houver alguém preservando essa fome (falta) como condição psíquica vital, tal como para se andar é preciso se desequilibrar, agirá esse Amor. E a rua será o lugar de sua busca.
Do que terá fome (desejo) a mãe, que se formará da fome de seu filho e não porque o alimenta, depois que este souber encontrá-lo fora dela? Buscá-la-á a si mesma, porque caída, abandonada, não-toda, e retornará ao ponto mesmo de onde partiu sua saga materna, cuja falta foi suprida temporariamente na tensão e no 'todo-tesão' de ter e cuidar de um filho. Mas, agora é zero a zero, bola no meio de campo e uma nova etapa de vida. Que poderá ser de um novo filho, um trabalho que a gratifique, ou o voltar-se para o marido se ainda tiver. Ou outro que venha suprir o vazio de seu regaço, que lhe dará sentido às mãos e corpo agora vazios. Será artesanato. Mulher a se fazer alguma coisa consigo mesma. Estará na rua, sairá charmosa ou, como uma saíra, pássaro frágil, vistoso; indefesa, ao mesmo tempo que de bico empinado, suscetível a algum homem que a coloque em coma de paixão. Essa queda a fará pecadora, em falta, humana, sem o peso que lhe confere a insígnia materna e os homens agradecê-la-ão com olhares, que valerão pra ela a renúncia de toda queixa de não ser tudo; de ser, por fim, um ser de amor, de perdas e de 'iremboras'.
Não tenho os passos que podem me levar adiante. Eles ficaram pra trás, aniquilados pela aridez com que o mergulho na ignorância enlameia e prende, no ácido pântano da indiferença coletiva. Estou sozinho. Ninguém me alcançará o que preciso, uma vez que de minha cabeça pra fora, ninguém sabe o que preciso. Quanto ao que preciso, nem eu mesmo sei. Ajo simplesmente, movido pelo que preciso e não sei. Perco-me das pernas que tenho, do cérebro que tenho, das mãos que tenho. Perco-me de minha pele para o que sentir. Do coração para o que amar. E o conserto, para que valham minhas pernas, minhas mãos, meu cérebro, minha pele, meu coração? Que diferença tem todos esses pedaços dispersos, cada um tentando funcionar num menino ou menina de rua, de um bando de músicos sem maestro? Quando muito, conseguirá dar cambalhotas a esmo, fazer caretas sem platéia, lutar com outro colega, para não perder a viagem da vida, na busca ao menos de alguma pose. Mas, a mestria, a sabedoria, a direção, a regência, quem a fará? Essa regulagem, que vem da batuta do Amor, quer dizer, vem de algum lugar, essa sim, não virá dele, vem de fora, vem de um longo ensaio para que seja falta, para que nele faça Arte, quer dizer, para o assombro e pasmo do mundo.
Somos formados por coisas que vem de fora, de uma história anterior. A cultura humana entra a partir de uma organização de desejos de fora, cuja matriz, em nossa organização cultural, chamamos de família. É preciso que alguém nos queira para querer nos passar os bens da cultura à sua maneira, os cuidados e tempo necessários: a língua materna, os costumes da comunidade em que viverei; os hábitos de vestir, alimentares, comportamento social e a falta como a fonte dos nossos desejos. O encontraremos depois num escritório, num banco, num barco, numa empresa comandando pessoas, na sala de aula ou numa Secretaria Municipal pensando a comunidade. Tudo isso, se ocorrer numa razoável atmosfera de afeto e de amor, pode-se pensar que culminará na constituição de um sujeito normal dessa sociedade. Fora disso, terá que ser mesmo artista.
Porto Alegre, 11 de setembro de 2006.

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(1) - LACAN, Jean Jaques. SEMINÁRIO 17 - A Ética da Psicanálise, 2.a Ed. Rio de Janeiro, Zahar Ed., 1992

PSICANÁLISE DAS RUAS

Seres tênues e nus, soltos na profundidade das ruas!
Ao contrário do que pensas, não penso.
Logo, inexisto como homem se não por alguma passagem,
Em cuja parada contemplo uma mulher,
Uma poesia, um livro, uma flor de beira.
No mais, é o cotidiano com suas lâminas afiadas,
Os tapas da realidade crua e incongruente,
Tapeada pela indigência
Que ainda acredita na mão estendida, mas não no carro que passa.
O menino que foge na direção da praça,
Sem degustar a rua,
Que nem sua nem de nenhum menino mais,
Pertence às traças do mercado - Decapitais.
Enquanto um psicanalista silencia: - que mais?.

 

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