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Bye, bye Río... (Breve crônica do Rio
-Primera parte-)

por Marcio Alexandre Abreu

El amor y el espanto, la alegría y la congoja, el orgullo y la vergüenza, y todo lo que une -separa y vuelve a unir- a
Río de Janeiro.

Rio de Janeiro, Região Sudeste do Brasil, antiga Côrte do Império, ex Capital Federal, ex Estado da Guanabara, atual Capital do Estado do Rio de Janeiro. Ponto de convergência cultural do país. Orgulho nacional. Vergonha nacional. Destino inevitável de viajantes sonhadores e turistas desavisados. Lugar escolhido como seu por gente de todo o mundo.
Não é incomum que, caminhando pela praia ou sentado num botequim, o sujeito ouça a seguinte frase: "Não troco o Rio por lugar nenhum no mundo!" Esta frase é lugar-comum no universo sonoro carioca e pode ser ouvida tanto de gente do Rio com de gente que escolheu viver nessa cidade.
O Rio é uma cidade de paradoxos e extremos. Colonizada principalmente por portugueses e africanos escravizados pelos portugueses, foi crescendo às margens da Baía de Guanabara e entrando pelos desvãos das montanhas, furando pedras, aterrando mares, subindo morros. Suas ruas são irregulares e seu planejamento pouco geométrico e bastante imprevisível, ao contrário de algumas cidades latino-americanas colonizadas principalmente por espanhóis.
Há quem possa imaginar que a "alma" de seu povo segue seu caráter geográfico: imprevisível, exuberante, surpreendente, curvilíneo, sinuoso, abrupto, pouco geométrico, vistas deslumbrantes, becos escuros. Novamente o paradoxo. Movimento. Jogo de tensões. Nada é parado, tudo se movimenta, a não ser o mar de dentro em dias de torpor, o Cristo impassível com os braços abertos, as grandes rochas onipresentes em cada canto da cidade. O resto é movimento, ventania, ressaca no mar de agosto, setembro e outubro, gente-do-lado-de-fora, cadeiras na calçada, paleta de cores, menino correndo (por brincadeira ou da polícia), música na esquina, avenida, balas perdidas no ar ou na cabeça de algum desgraçado, cheiro de alho na hora do almoço, barulho de panela de pressão, homens de terno no centro da cidade, moeda afundando no asfalto derretido pelo calor no verão da Av. Rio Branco, gente bonita (muito bonita), gente feia (muito feia).
Escuro e claro. Tudo isso separado e tudo isso junto. Paradoxo. Grandes alturas. Sobrevoar o Rio pode ser uma experiência inesquecível. Vista aérea. Uma ilusão doce e, na verdade, nem todas as ilusões são dispensáveis. Sensação de que alí é o lugar. Se você desce, pisa no chão, cai, aterrisa, nada garante que estará a salvo. A não ser que você queira estar a salvo de tudo. É tudo ou nada. Tudo tem um preço e um risco, inclusive a felicidade, o êxtase, o prazer. As coisas se misturam, as extremidades são próximas e alternantes. As favelas da zona sul são vizinhas dos condomínios de classe alta e média. Todos se comunicam, seja através do trabalho, da exploração

mútua, da amizade verdadeira, do assalto, do comércio no trânsito, do ensaio na quadra da escola de samba, do sexo fácil, do sexo difícil.
No Rio existe vizinhança. As pessoas se encontram, se vêem, se tocam, mesmo contra a vontade. Num ônibus lotado por exemplo, na praia dividida, na merda que se mistura no esgoto que polúi por anos a Guanabara e as lagoas das restingas. E cada governo se elege prometendo a despoluição das águas. Um círculo vicioso que se repete e revela ao mesmo tempo a máquina emperrada e um encontro íntimo, um lugar onde não existe o abismo social: a merda é a mesma para todos. Somos iguais na merda que produzimos. Praias lotadas de gente de todo o tipo dividindo a merda comum. Rolando na merda. Mergulhando na merda. Mas, como venho tentando dizer, nem tudo é apenas essa merda! Não mesmo! As praias são lindas, a gente também, os becos, tudo. É só escolher bem. Paradoxo novamente. Ai, ai, ai!
Na minha opinião, se existe uma luta entre o Homem e a Natureza na cidade do Rio de Janeiro, quem ainda vence, apesar de tudo, é a Natureza. Às construções irregulares nas encostas e aos desmatamentos a Natureza responde com desabamentos e pedras rolando morro abaixo, destruindo casas e esmagando pessoas; à sujeira espalhada pelas ruas e escoadouros a Natureza responde com enchentes que deixam centenas de desabrigados todos os anos. O mar avança sobre o calçadão, a Mata Atlântica sobrevive, as águas de março sempre chegam, tem floresta no centro da cidade, tem passarinho, muito passarinho, tem bonde, tem Santa Teresa, tem banho de bica nas Paineiras com água gelada que desce a montanha. O embate é difícil, mas a Natureza ainda vence.
E aí está o Rio: gente e pedra, gente e água, gente e gente, gente e vida, gente e morte. Sempre gente. Muita gente. Muito são orgulhosos, muitos, por incrível que pareça, são conservadores, muitos são generosos, muita gente boa,mulheres de bunda grande e sorriso largo, gente que faz arte pela rua, gente que rouba, gente que mata, gente que estuda, que trabalha, gente que nunca pega sol. Muita gente.
Muito pode-se dizer sobre o Rio de Janeiro, sobre as cidades, relatos de viagem, histórias contadas, registros da memória. Parece que foi essa, entre tantas, a maneira que a maioria das pessoas encontrou para viver: nas cidades; aglomeradas; muitas vezes lindamente aglomeradas. Eu aqui penso em Buenos Aires. Eu aqui sozinho num terraço bem alto de um hotel em São Paulo, cercado de prédios cheios de gente, terminando de escrever este texto que comecei numa praça no bairro de Laranjeiras, no Rio. De lá contarei algumas histórias numa próxima vez...
" O fim está no começo e no entanto continua-se." (Samuel Beckett)
...nos vemos.
Marcio Abreu.
1. SãoPaulo, 11 de fevereiro de 2003.

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