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Algo mais sobre a memória


por Marcio Alexandre Abreu

Quizás, los recuerdos que a veces evocamos, sean sólo el intento de recuperar -incluso de inventar- las circunstancias que nos parecen más apropiadas para ciertas emociones demasiado perdurables.

Pero al parecer, somos un instante que desaparece de a poco,

y sin un recuerdo que lo explique del todo.

¿E o que diremos a respeito da lembrança daquilo que não vivemos? Por exemplo, quando acordo em dias de sol e estou numa cidade ao sul das minhas ansiedades tenho a sensação de estar no lugar errado, como alguém que um dia se perdeu dos pais ainda criança, e foi assim: desci do carro. Passou um carneiro andando pelo asfalto. Ele tinha um sino pendurado no pescoço. Segui o carneiro. Olhei para trás e não vi mais o carro. Não vi meus pais. Olhei para frente e não vi mais o carneiro. Ouvi o barulho do sino bem longe. Fiquei bem quieto. Parado no meio do asfalto. Cinco anos. Olhos grandes. Boca grande. Fiquei parado e não ouvia nada. Era domingo numa cidade do interior do Rio de Janeiro, onde morava a "parentada" italiana. Pádua. Santo Antônio de Pádua. Como Padova. Na época eu não sabia disso. Cinco anos. Olhos grandes. Boca grande. Parado no asfalto. Sozinho. Fiquei bem quieto. A rua que parecia grande ficou maior, e eu pequeno e parado no meio da rua que parecia grande fiquei menor. Pareci menor. Boca grande. Olhos grandes. Fiquei bem quieto. Em Pádua tinha um rio que no verão enchia demais e tomava as ruas e invadia as casas. Na época eu já sabia disso. No quintal da casa da minha bisavó silenciosa passava o rio Pombas. Disso eu sabia. Não podia entrar, o rio levava embora. A prima da avó da minha mãe tinha uma tia que adotou uma filha que se afogou no rio, bem no fundo do quintal da casa da minha bisavó silenciosa. Disso eu sabia. Minha mãe sabia e meu pai sabia. A minha irmã também sabia. Fiquei bem quieto. Passou um tempo que eu não conhecia. Um tempo que não passava. Um tempo que ainda que passasse não passava. Chegou um moço e olhou pra mim. Quando eu vi que ele me viu. Parado. Pequeno. Perdido. Três pes. Olhos e boca cada vez maiores. Chorei de soluçar. Ele me deu um pirulito e o choro sumiu imediatamente. Ele era o dono da quitanda. Levou-me pra lá, ligou o rádio de pilha, falou para as freguesas que eu estava perdido, a notícia se espalhou e no fim do dia meu pai chegou na quitanda. Ele parecia menor que eu. Disso eu não sabia. Ele me abraçou e fomos crescendo juntos. Ficamos bem quietos.

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